(Em parenthesis: Victor Hugo, quando pronunciou a palavra «genio», não fez algum signal indicativo que me auctorisasse a escrevêl-a{149} em lettras maiusculas, a não ser o tom, a pancada com que elle a proferiu, batendo na testa).

—GENIO,—repetiu elle—só genio; corôa de conde, não: as corôas não as dá Deus; compram-se cá. Vinte negros, vendidos depois de azorragados, dão uma corôa de conde, snr.ª D. Maria José de Portugal. O sangue de vinte negros n'um prato da balança; e no outro prato a corôa de conde. Aqui tem como hoje na monarchia de seu pae se forjam os grandes do reino, os senhores do novo feudo, os castellãos dos armazens de molhados, os ricos-homens que conquistaram pendão e caldeira nas arrancadas de Africa, nas costas de Guiné, pelos sertoens dentro, á montaria das rezes negras, que se acurralam nos poroens dos açougues, e se infeiram nos atrios dos palacios d'estes condes, d'estes Baldaques, d'estes...

D. Maria, que o estivera escutando com os olhos baixos, relançou-lhe um olhar de frecha, e disse:

—Está-me incommodando, senhor Victor! Lembro-lhe o dever de não insultar uma pessoa ausente, que me tem tratado com a maior delicadeza, e de quem V. S.ª não tem razão de se queixar.{150}

—Estou-a incommodando!—replicou elle com espanto.—Onde foi V. Ex.ª escavar palavra tão aviltante, tão despresadora!?... Diga-me antes que a injurio. Incommodar! Isso diz-se a um mendigo importuno, a um miseravel que nos enoja, a uma lama que nos salpica o verniz das botas! Incommodar! V. Ex.ª perdeu a magnanimidade com que tratava os humildes, antes de viver com os condes? A mim, senhora, devêra incommodar-me o carcere onde estive por amor de V. Ex.ª, e não me incommodou! Deviam incommodar-me as vaias, as zombarias dos correligionarios que deixei por amor de V. Ex.ª, e não me incommodaram! Devia incommodar-me o aprumo realengo das suas vozes sentenciosas quando me falla, e não me incommodam; porque as ingratidoens de V. Ex.ª não incommodam, dilaceram; não são fastidiosas como a impertinencia; são percucientes como a ponta hervada d'um punhal!...

—Tanta palavra, meu Deus!—exclamou D. Maria José, rebuçando a ironia no tregeito da admiração.—Todo esse excesso de sentimentalismo seria bom de perceber, se algum acto da minha vida me obrigasse a dar conta dos outros ao snr. Victor Hugo... Mas eu creio que não... A amisade não explica o zelo{151} de V. S.ª nem me força a respeitar a censura que me faz. Se me avalía injustamente, sinto; mas não sei que lhe faça...

—Quer dizer—sobreveio o poeta—que ama o conde de Baldaque?

—Não, senhor; quero dizer que amo a minha liberdade.

—E nega que ama o filho do negreiro?

—Quem é o negreiro?