—O negreiro era o pae do roué, cujo escravo despicou V. Ex.ª. Vai bem á filha do snr. D. Miguel de Bragança deixar-se requestar de um homem a quem seu augusto pae daria como escudo um tagante sobre as costas negras d'um ethiope a ressumbrarem sangue? Senhora D. Maria José de Portugal, não responda: medite, e, depois dir-me-ha se eu devo noticiar aos fidalgos portuguezes, com quem me dou, que V. Ex.ª fez d'este balcão uma especie de altar baixo, ao réz da rua, bem baixo, para que algum ignobil transeunte pudesse levantar até aqui o braço humilde e depôr o vóto. Só assim, minha senhora, o arlequim, trajado de conde, ousaria defrontar-se com V. Ex.ª. Emfim, começo a ler no seu rosto o fastio que avilta. Eu retiro-me... Saiba, porém, que a amo, snr.ª D. Maria José... Note bem... que a amo! E os homens da minha tempera, quando são indignamente menoscabados,{152} morrem, ou fazem guerra mortal a quem os despreza! Note bem isto! palavras solemnes!...

E sahiu.

Victor Hugo José Alves era assim! Amava e bramia d'aquelle feitio; mas era homem—como já poucos havia, e não ha hoje nenhuns—capaz de desfechar valentes rhetoricas á face de uma senhora. Não lhe afeminavam os olhos as lagrimas da pieguice. Em vez de suspiros ciciosos como auras entre moitas de rosmaninho e trevo, trovejava urros, quando o ôdre da paixão lhe rebentava dentro. Fizeram-no assim a natureza e o theatro, o sangue do dom abbade de Cistér misturado ao sangue do Alves da sóla, caceteiro defunto; e, além d'estes sangues, a arte, os dramas do snr. Mendes Leal, cheios de judeus ciosos, e outros facinoras metaphoricos.

Na noite d'esse dia funesto, o amador aviltado pediu a D. Rozenda que lhe mostrasse um folheto publicado em 1840 contra a mãe de D. Maria José de Portugal.

D. Rozenda, receiosa de alguma imprudencia intempestiva, quiz saber que destino o filho tencionava dar ao folheto.

—Nenhum,—disse elle, coando um riso feroz por entre as luras croozothicas de tres dentes incisivos.{153}

—Vê lá, Victor!... Não faças mal á rapariga...—instou a mãe.—Se ella doidejar, deixal-a... Olha que este folheto mente que tem diabo... Lá que ella é filha de D. Miguel, isso é tão certo como tu seres meu filho... O que tu tens sei eu... É ferro... soubeste que ella namora um conde... Isso já eu desconfiava... E então que se lhe ha de fazer?...

—Que pergunta!—replicou sacudindo a juba o equivoco neto do ferrador de Povolide.—Que se lhe ha de fazer!... Ignobil pergunta! Ó mãe, mãe, que é dos instinctos nobres da sua origem? Como pode consentir que seu filho seja acalcanhado por um villão, que se diz conde? Conde! Nós, os legitimistas, não reconhecemos titulos outhorgados pelo governo usurpador. Baldaque é o negreiro, é o chatim, é o plebeu reféce. Maria José de Portugal, a luveira, é filha de um rei. Nós, os que defendemos o prestigio dos nomes historicos, não consentimos que um bandalho, vestido de conde na guarda-roupa d'esta tramoia que se chama o systema liberal, se atreva a mercadejar com o producto das negras uma senhora que teve o pae no throno...

—Pois se sabes que ella teve o pae no throno—replicou a mãe sensata—que queres fazer ao folheto?

—O que quero? Vêr se posso convencer-me{154} de que esta mulher não é filha do snr. D. Miguel, casando ella com o plebeu, arraiado dos xaireis de conde, percebe?