Deus, ecce Deus!

VIRGILIO, Eneida, L. VI, V. 46.

Um dia, corridos poucos mezes depois dos successos relatados, entrou na loja da luveira um ancião com tres senhoras pobremente vestidas de luto e quatro meninos pallidos, magros, com os olhos grandes e socavados da fome.

Descobriram-se o velho e as crianças. D. Maria José levantou-se e respondeu á cortezia profunda das tres mulheres, que a cortejaram como a desgraça corteja o valimento.

O homem, que parecia engulir as lagrimas para poder fallar, disse com o chapéo em uma das mãos e a outra no peito:

—Está na presença de V. Ex.ª um brigadeiro{158} que em Evora-monte entregou a espada aos vencedores. Em vez de entregal-a, se eu não tivesse mulher e quatro filhas, ter-me-hia inclinado para a ponta da espada, e cahiria vingado da sorte, já que as balas do inimigo me pouparam para tão longa e desmerecida infelicidade. Estas tres mulheres são minhas filhas, A mãe morreu esgotada de forças, porque teve fome quando creava a ultima menina, que não está aqui, porque tambem morreu ha seis mezes. Era já viuva: foi descançar na sepultura, e deixou-me quatro netos que são estas crianças. Somos oito pessoas de familia. As minhas filhas trabalham quanto podem e em tudo que sabem. Mas pouco sabem, porque a si devem tudo. As duas mais velhas ainda estiveram dois annos em collegio; porém, aprendiam linguas, como cumpria que aprendessem as filhas d'um official-general, com appellidos tradicionaes e serviços á patria mais valiosos que os appellidos. Tirei-as do collegio, logo que principiei a vender as joias de minha mulher. As duas meninas, voltando a casa, fallaram em francez á mãe, que tinha sido educada no estrangeiro; e eu disse então ás innocentes mal entendidas na desgraça de seu pae: «Filhas, aprendei a pedir esmola em portuguez.» Ellas estremeceram e choraram,{159} como se adivinhassem a fóme e a nudez.

D. Maria José, com as palpebras trementes e as lagrimas a borbulharem, atalhou o brigadeiro:

—Deve ser muito penoso a V. S.ª contar-me a sua desgraça, e a mim ouvil-a. Se me julga nas circumstancias de soccorrer as suas mais urgentes precisoens, e se quer servir-se do meu pouco, espere V. S.ª que eu vou buscar algum dinheiro...

—Não, minha senhora—tornou o velho.—É certo que venho pedir a V. Ex.ª uma esmola, mas esmola muito avultada: nada menos que o pão, a educação e o futuro destes meus netinhos...

—Oh! se eu pudesse...—atalhou D. Maria—V. S.ª provavelmente está enganado com os meus recursos...

—Eu não me valho dos recursos da fortuna; mas sim dos da alma de V. Ex,ª. Receio estar roubando-lhe tempo, minha senhora, e portanto serei succinto quanto possa, até para me não parecer com todos os desgraçados que são geralmente diffusos. Ha um mancebo poderoso em Lisboa, do qual muitas familias realistas, de seis mezes a esta parte, recebem mezadas abundantes. Este caritativo senhor não é legitimista; não sei o{160} que é politicamente: sei que é bom; é dos que professam a divina legitimidade de Jesus Christo. Chama-se elle o snr. conde de Baldaque...