D. Maria José corou: eram o nome, a surpreza, e o jubilo, tudo simultaneamente.
O ancião proseguiu:
—Eu tambem sou dos favorecidos pela bem-fazeja mão do snr. conde, que me não conhece, nem recebe á sua presença as pessoas que o buscam para lhe agradecerem a esmola: recebe apenas as que vão pedir-lh'a. Eu já o procurei. Annunciei-me como portador das lagrimas reconhecidas de meus filhos e netos. O benigno mancebo mandou-me dizer que voltasse eu a pedir á minha familia que lhe mandasse sorrisos em vez de lagrimas. Delicado coração! Como é possivel haver no peito de um rapaz afortunado, que nunca soffreu, esta sciencia da desgraça, este respeito ao pêjo com que um velho, outr'ora feliz e affagado de ricas esperanças, se dobra a beijar a mão que lhe reparte o pão de cada dia pela sua familia! Diga-me V. Ex.ª minha senhora, como tão cedo se formou na alma do snr. conde de Baldaque a virtude que é costume retemperar-se na fragua das dores!... Teria elle, em annos tão verdes, experimentado desenganos, perdas de nobres{161} affectos, dissabores grandes que antecipam a velhice moral e influem a precoce piedade dos anciãos como eu, e das familias angustiadas como esta minha?
—Não posso responder-lhe...—disse a luveira—conheço o snr. conde ha pouco mais de um anno... Não sei de alguma dôr grande na sua vida, senão da morte do pae...
—Um cavalheiro que o conhecia não me disse mais do que V. Ex.ª—continuou o velho.—A este cavalheiro, que priva muito com os meus correligionarios e se chama Victor Hugo José Alves, perguntei se as relaçoens, que tem com o snr. conde, o auctorisariam a pedir-lhe um favor para o desvalido brigadeiro Tavares. Respondeu-me o snr. Victor Hugo que não; mas ajuntou que me diria pessoa idonea, e logo me nomeou a snr.ª D. Maria José de Portugal. Hesitei se devia acceitar a informação seriamente, porque havia no tom das palavras e no gesto d'elle certo azedume ou ironia que me fez desconfiar. Contei isto a minhas filhas, e ellas, principalmente as duas mais velhas, quando eu proferi o nome de V. Ex.ª, disseram logo que tinham conhecido uma filha do snr. D. Miguel, no collegio onde algumas vezes foram visitar as suas antigas mestras; e uma{162} d'ellas, se bem se lembra, ainda deu liçoens de francez a V. Ex.ª...
—É aquella!—exclamou com alvoroço D. Maria José, saindo fóra do balcão para abraçal-a.—É a snr.ª D. Ernestina Tavares... Eu entrevia no seu rosto uma pessoa conhecida...
—É esta velha que aqui vê de cabellos todos brancos aos trinta e cinco annos... disse Ernestina.
E D. Maria, com mais familiar sorriso:
—Eu tenho uma saleta, onde posso receber senhoras minhas amigas e de mais a mais pobres...—E, subiu a escada, correu um reposteiro de chita, e esperou que as oito pessoas entrassem.
Depois, mandou para a loja a criada, e pediu ao brigadeiro Tavares que lhe desse a satisfação de ser util á sua familia.