O que dera aquellas provas muito equivocas da sua admiração á objurgatoria do poeta era um velho barbaçudo, de espessos bigodes brancos, alto, gravemente vestido, magestoso aspeito de soldado da guerra peninsular. Era o ex-brigadeiro Christovão de Pina Tavares.
Victor Hugo, estupefacto da injuria e talvez atordoado do choque, encarou fremente, mas silencioso, o veterano que elle perfeitamente conhecia.{171}
—Villão!—rugia o velho com os olhos brilhantes da chamma dos vinte annos—Torpissimo gaiato que insultas a senhora que roubaste! Bandido, que comes no Hotel Bragança os tres contos de reis de...
Tavares susteve-se, reprimido pela mão da caridade. O homem, que havia bebido o fel da injustiça, receiou ultrapassar o direito do castigo. Conteve-se, vendo o quebranto do miseravel, e o fundo abysmo a que podia tombal-o com o pé.
Outro militar, general das fileiras da liberdade, antigo camarada de Chistovão Tavares, e seu convidante n'aquelle jantar, tirou-lhe com força pelo braço, e levou-o.
Os galhofeiros ouvintes de Victor sahiram de espaço, sem sequer averiguarem da injustiça do insulto. Elle, porém, restaurado da pancada moral, recolheu-se ao seu quarto, atirou-se contra o estofo d'uma voltaire, fincou os dedos na testa, e resmuneou cabeceando entre as sacudidelas da colera e dos gazes da indigestão:
—Ó minha vingança!... Ó minha vingança!...
Terribilissimo, formidando e medonho pela cara que fez então!
Quando, passados minutos, o criado lhe{172} entrou ao quarto com os castiçaes, Victor Hugo remetteu contra elle, bramindo:
—Que queres?