E cambaleava como se as luzes lhe inflammassem o alcool.
—Que queres?—tornou elle de murros apontados á cara innocente do gallego.
—Trago as luzes, snr. Victor Hugo...—tartamudeou o moço assombrado.
—Vai-te!... Deixa-me!... Negro, negro, quero tudo negro, como a vingança!
O criado sahiu, e disse á criada, que espreitava o poeta:
—Safa-te, que elle está borracho!...
Safemo-nos tambem nós: deixemol-o gizar a traça da vingança; não assistamos áquella alchimia diabolica; que o kumel e o cognac se lhe destillem em peçonha escorrida da fornalha do cerebro ao coração.
Mas quem disse a Christovão Tavares que o seu correligionario consumia em golodices francezas, no famigerado hotel, as inscripçoens da condessa de Baldaque?
Não foi ella.
Acontecera, como era natural, contar a luveira ao conde o destino que dera aos seus apoucados haveres. Esta confidencia—bem se lembra o leitor—denegada n'outra occasião,{173} fêl-a espontaneamente depois que, sem rodeios nem contrafeito pudor, disse ao conde que o amava. Similhante revelação realçou-lhe a virtude no conceito do noivo. Nada mais formoso, mais para se adorar que a pobreza tão de vontade, o despojar-se a magnanima senhora em beneficio d'um pae que lhe não enviára sequer palavra de agradecimento! Esta magua tocara-lhe o coração; mas sem queixar-se.