Entretanto, o conde, quando soube quem tinha sido o medianeiro da remessa do dinheiro, suspeitou da fraude, sem todavia insinuar ao animo de D. Maria as suas desconfianças.

Neste tempo, o brigadeiro Tavares era muito da casa do conde, e estimado como amigo com todas as excellencias de leal caracter, ao passo que D. Maria José solicitára a familiaridade das filhas a quem communicava as delicias do seu amor.

Contou o conde a Tavares o lance admiravel da remessa do dinheiro; mas, duvidando que o principe proscripto o recebesse, encarregou o velho de averiguar dos maioraes do partido legitimista, se alguem, auctorisado por D. Maria José de Portugal, remettera tal quantia ao snr. D. Miguel de Bragança. O indagador{174} levava instrucçoens para não citar o nome do medianeiro, talvez com o proposito de lhe não ferir o pundonor, se elle houvesse honradamente cumprido o encargo.

A commissão de soccorros respondeu que nenhuma quantia lhe fôra entregue de ordem de tal dama; posto que muitas vezes, nas reunioens onde concorria Victor Hugo José Alves, se houvesse mencionado tal senhora como filha d'el-rei o snr. D. Miguel—filiação aliás duvidosa para elles membros da commissão de soccorros.

No dia immediato, Christovão Tavares entregava tres contos de reis aos encarregados de remetter para Heubach os donativos, e pedia que se fizesse chegar ao conhecimento de D. Maria José de Portugal qualquer palavra que o snr. D. Miguel escrevesse a tal respeito.

Antes de volvidas tres semanas, a commissão de soccorros enviava, por via do ex-brigadeiro, á luveira da Rua Nova da Palma, uma carta do principe proscripto ao vice-rei, perguntando-lhe se a senhora que tão generosa o visitava no seu desterro era filha de Marianna Franchiosi Rolim de Portugal.

O conde, disfarçando a parte que tinha no jubilo da sua amiga, assistiu ao mavioso espectaculo{175} da ternura com que ella beijava a carta do pae.

Dizia então D. Maria, para aliviar escrupulos de ter sido injusta:

—Olhe, Raul, eu nunca lhe disse isto; mas digo-lh'o agora como quem se alivia de um peccado, confessando-o. Cheguei a desconfiar que Victor Hugo não mandasse o dinheiro. Nunca ousei perguntar-lhe por nada, receiando que elle me adivinhasse a suspeita... Pobre rapaz!...

E o conde sorria, sem lhe entre-mostrar uns longes da verdade.