Tavares, por sua parte, obedecia ás ordens do conde, guardando, com superior esforço e dolorosa violencia, o segredo do roubo. Quando, ainda assim, encontrava o ladrão entre os homens de bem do partido absolutista, o velho descorava, torcia-se, gaguejava monologos, resfolegava fumaradas de colera, e fugia com o segredo, que lhe pezava, como se levasse sobre a alma um enorme remorso—remorso de não avisar os seus correligionarios.

Uma vez pediu com as mãos erguidas ao conde que o deixasse expulsar d'entre os realistas aquelle hediondo larapio. E o conde respondeu:

—Isso é de justiça; mas deixe-me casar e saír de Portugal; depois, quando minha mulher{176} estiver longe, fará o que entender. Não lhe roubemos á feliz menina o prazer de ter sido d'ella o dinheiro que D. Miguel recebeu. Se o snr. Tavares denuncia o furto, o escandalo andará tão fallado por essa Lisboa que D. Maria será das primeiras pessoas que o saibam.

N'este bom proposito, esperava o velho, quando concorreu áquelle jantar, a convite do antigo camarada, que solemnisava n'esse dia, com duas garrafas do Porto, a sua reforma em marechal de campo. A garrafa correspondente ao ex-brigadeiro, a gratidão e a honra cooperaram n'aquelle impeto das duas bofetadas. Mas, graças ao sentimento de commiseração que o reteve, os circumstantes não perceberam senão que Victor Hugo insultava uma senhora a quem havia roubado tres contos de reis.

No dia seguinte, contava-se o caso no Chiado. Uns diziam que Victor havia sido amante da luveira casada agora com o conde, e lhe gatunára a herança que ella tivera d'um agiota. Esta era a opinião dos sugeitos contusos por Damião Ravasco. Outros, rejeitando a tradição mais corrente, asseveravam que a roubada tinha sido uma marqueza velha, e que o official realista, que bofeteara o litterato, era amante da marqueza desde 1801—ou 1789,{177} acrescentava o meu amigo José Parada para quem todos os infortunios eram cornucopias de chalaça.

O conde, recolhido á dôce intimidade do noivado por muitos dias, ignorou o successo; e, quando saíu, não houve indiscreto que lh'o referisse.

No emtanto, Victor Hugo dava que scismar aos seus partidarios, não comparecendo nas reunioens onde innocentemente conspiravam os letrados da causa; nem sequer nos saráos somnolentos, onde a idéa velha passava as noites cabeceando acalentada nos braços do snr. padre Beirão e d'outros.

Naturalmente se explica o desvio do cavalleiro da Ala pelo justo receio de ser interrogado ácêrca dos tres contos de reis, sabido já o roubo pelo ex-brigadeiro, que tinha accesso ás casas principaes, e reputação de homem honesto.

E mais depressa ainda se esclarece a conversão d'este desgarrado bode ao seu rebanho antigo,—á seita dos carbonarios, reorganisada em 1848, com elementos combustiveis de tanta força, que todos se vaporaram, deixando as fezes ahi por essas secretarias do Terreiro do Paço, encrustadas nas pastas dos ministros que foram, que são, e hão de ser. Diziam os{178} seus confederados na loja: que Victor Hugo, restituido á bandeira que desertára por amor d'uma ingrata Dalila, nunca fôra tão Samsão na força do verbo, tão Hugo na energia das figuras, tão republicano na medula dos seus ossos. O seu auditorio destampava em gargalhadas quando o Fuas Roupinho da esquadra naufragada, zombando do seu proprio appellido de guerra, chacoteava da ordem de S. Miguel, que elle denominava a cavallaria desferrada do archanjo.

É justo que não se esqueça, na correnteza d'estes casos, a familia d'esta pessoa.