D. Rozenda Picôa, assim que viu annunciado o casamento de D. Maria José de Portugal, deliberou visital-a e manter boas relaçoens com a sua hospeda, visto que a fortuna caprichosa a collocara na posse pouco vulgar de uma corôa de condessa com tres milhoens.

Annunciou-se ao guarda-portão do palacio. Tangeu-se uma campainha. Desceu um escudeiro que recebeu o nome da visita. E com demora de alguns minutos, voltou o escudeiro dizendo que a snr.ª condessa não recebia.

—Então porque?!—perguntou D. Rozenda abespinhada.{179}

—Porque não quer... É boa a pergunta!—respondeu o escudeiro com altivez.

—Não quer?!—redarguiu a mãe de Victor.

—Então a snr.ª luveira já não conhece as amigas velhas?... Não?... Ella me conhecerá!...

E saíu enfurecida em busca do filho, deliberada a conciliar-se com elle para collaborarem na vingança.

Em abono do benigno coração da condessa cumpre saber-se que ella receberia com alegre sombra a visita de D. Rozenda, se o conde, ao ouvir proferir o nome da mãe de Victor Hugo, não pedisse brandamente á esposa que se abstivesse de receber tal senhora.

Perguntou ella que razão havia para não a receber. O conde respondeu:

—Deve ser muito forte a causa que me faz contrariar-te pela primeira vez, minha filha. Tu a saberás. Por em quanto, basta que eu te diga que esta mulher é mãe de um homem que os meus lacaios recusariam acceitar nas suas assemblêas de taverna. Sabes de mais que eu não defendo minha casa aos pobres; as tuas amigas e os meus amigos são todos pobres. Se essa senhora está necessitada, soccorre-a; mas não a recebas, porque é mãe de um homem que está hoje escarnecendo os amigos de teu pae. {180}