O primeiro documento é um attestado onde se diz que Marianna Joaquina, filha de Eusebio Joaquim e d'outra Marianna Joaquina fugira de Azeitão em 1814 com João Lopes Giraldes.

Do segundo documento convem trasladar o seguinte, que é já copiado da nota do tabellião de Lisboa Thomaz Isidoro da Silva Freire (Livro 214, folhas 103):

Saibam quantos este instrumento de declaração virem que no anno do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo, de mil oito centos e trinta e um, aos vinte e nove dias do mez de novembro, n'esta cidade de Lisboa, na rua da Magdalena n.º 70 e casas de morada de D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem, aonde eu tabellião vim, estando ahi presente Eusebio Joaquim da {184} Silva, morador em Villa Fresca de Azeitão, e por elle foi dito na minha presença e das testimunhas ao diante nomeadas: que, no anno de mil oito centos e quatro, lhe foi entregue e a sua mulher Marianna Joaquina da Conceição, uma menina para crear, a qual viveu em sua companhia, e da dita sua mulher na Villa d'Azeitão, reputada como sua filha até á edade de treze annos para quatorze em que se casou, e que agora pela prezente escriptura declara que a referida menina é a dita D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem, e que não é sua filha, nem com ella tem parentesco algum, e que esta declaração promette, e se obriga haver em todo o tempo por firme e valiosa. Estando tambem presente a dita D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem por ella foi dito acceita esta declaração na forma d'ella.

O terceiro documento é um auto lavrado em 1838, na villa de Azeitão, onde appareceu um José Antonio Atalaya, com procuração de pessoa que o documento omitte, citando Eusebio Joaquim da Silva para jurar em sua alma se D. Marianna Joaquina de Portugal residente em Lisboa, é sua filha, e se ali possue uma quinta. Eusebio declara ser verdade o allegado na petição.

Segue um documento denominado Querela.{185}

É o traslado da querela que deu em 1821 contra Marianna Elisia, mulher solteira, um Manoel Rodrigues, padeiro na Travessa do Secretario da Guerra, queixando-se de ter sido roubado em objectos de ouro e diamantes no valor de 848$000 reis.

Vem depois um attestado do solicitador de causas Antonio Gamarra, passado em 1838, certificando que Marianna Joaquina da Conceição Elisia, concubinaria do padeiro em 1821, era a mesma que, desasete annos depois, se chamava D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem Portugal, e vivia na rua da Emenda, onde tinha carruagem propria.

Accresce outra attestação do prior de S. Nicolau Francisco do Rozario e Mello, datada em 1839. Jura elle in verbo sacerdotis que, no anno de 1827, apparecêra no cartório da egreja de S. Nicolau uma mulher de capote dizendo que pretendia se lhe baptizasse um menino filho de paes incognitos, e que trazia procuração do desembargador Ferraz para ser padrinho; mas, no acto de lançar o competente assento no livro, ella observára que, sendo verdadeiramente padrinho quem tocava no menino, melhor seria não designar elle prior como padrinho o dito desembargador, mas sim o portador da procuração. Attesta mais o padre que, volvido algum tempo, appareceu{186} no mesmo cartorio uma senhora ostentando grande personagem pela tafularia dos vestidos e carruagem de que apeara, e disse chamar-se D. Marianna Joaquina Portugal; mas declara o prior que logo reconheceu ser a mesma que solicitara o baptismo já referido. E declarou a dama que tinha havido um filho do desembargador Ferraz, o qual menino ali fôra baptisado como filho de paes incognitos. Acontecendo, porém, ter proximamente fallecido o desembargador, ella pretendia que no assento baptismal de seu filho se declarasse o nome do pae. O padre recusou-se, sem que a competente auctoridade o auctorisasse. Dias depois, voltou a mesma senhora com uma ordem do vigario geral, o desembargador José Gonçalves Pereira, mandando proceder o prior ás diligencias necessarias para averiguar se o menino Francisco era filho do desembargador Ferraz. Em observancia de tal mandado foi o prior a casa de D. Marianna de Portugal, e ouviu o depoimento de tres mulheres; todavia, no dizer do padre, as testimunhas eram tão discordes nas circumstancias, que nenhum credito lhe mereceram. E acrescenta que tendo elle despedido um preto seu criado, o preto entrou no serviço de D. Marianna de Portugal; e, voltando para casa d'elle prior, declarara que na casa, d'onde sahira, havia um{187} menino comprado para herdar d'um homem rico e fallecido.

Temos agora outra attestação, que vae integralmente copiada:

José Joaquim do Cabo Pinto, commendador da ordem de S. Bento de Aviz, tenente coronel de cavallaria, governador do Forte da Cruz Quebrada. Attesto que D. Marianna Joaquina Franchiosi Portugal, hoje intitulada Rolem, talvez por se ter naturalisado franceza, tem sido heroina sem egual, como é notorio n'esta cidade, querendo-se intitular fidalga, sendo filha de um moleiro de Azeitão, por nome Euzebio, a quem fugiu com um official de Marinha, vindo assistir para o pé da Fundição; dizem que depois cazou com um sombreireiro, que a deixou e fugiu; tomou uma caza na rua dos Douradores, a que deu o nome de hospedaria, aonde iam os figuroens com as suas amasias, e por isso adquiriu grandes conhecimentos, dos quaes soube tirar partido, sendo seus apaixonados Luiz da Motta Fêo, o Barrão, coronel de milicias, Antonio Sicard, tenente de cavallaria que morreu na Torre de S. Julião, e um Rego, e a final o desembargador Ferraz que lhe poz carruagem, e ella largou então a hospedaria, e veio morar para o Carmo; mas, indo todos os dias á Travessa de Pombal a caza do tal Ferraz, que morreu quasi de repente, apoderou-se de um {188} bahu em que elle tinha os seus papeis; e, por temer que lh'os procurassem em caza, foi morar ao pé do Paço de Bem Formoso, e metteu-se depois a protectora de pretendentes, alcançando muitas coizas pois era protegida do ministro da fazenda D. Diogo Lousan; passou a ser espia de D. Miguel, a quem ia fallar um dia sim outro não, quasi sempre, e por isso contrahiu grande amisade com o Vadre. E, como receasse a chegada do snr. D. Pedro a Lisboa, se naturalisou franceza, pois sei a quem ella mostrou a carta de naturalisação; isto era para jogar com um pau de dous bicos. Finalmente é heroina do seculo, como é notorio. E, como me consta haver uma cauza que a dita propoz ao snr. F... na qual diz que uma menina que tem em caza é filha do tal F... declaro pela presente que ainda que ella fosse sua mãe propria, era impossivel saber se...[[4]] Mas é constante por ella o dizer ás suas amigas que a menina era sua afilhada, e a tinha tomado por a mãe ser pobre; mas agora no seu proceder se conheceu o fim para que a tomou... etc. Lisboa 5 de julho de 1838.