Já elle subia accelerado as escadas, perguntando a Damião Ravasco se o correio da posta interna havia trasido alguns papeis.

—Trouxe dois folhetos;—disse o mulato—um para V. Ex.ª e outro para a senhora condessa.

—Que desgraça!—murmurou o conde.

É que elle, entrando em casa do seu banqueiro, vira sobre a escrivaninha um folheto ainda cintado, e lera nas margens onde não chegava o papel sobrescriptado as palavras Marianna e Portugal. Pediu licença para abrir o folheto, leu salteando algumas linhas de cada pagina, e sahiu precipitadamente no intento de impedir que a condessa visse os insultos a sua mãe.

Entrou ao quarto onde Ernestina escutava a agitada respiração da condessa.

—Ella leu o folheto?—perguntou o conde.

—Não sei que folheto V. Ex.ª diz... Eu ouvi-a gritar, corri logo, e achei-a n'este estado. Ainda me disse não sei que palavras que mal percebi...

A este tempo, Damião Ravasco, esquecido do respeito usado com a ante-camara de seu amo, tinha tambem entrado, e erguido do chão o impresso. O conde, que transportára nos braços a esposa para o quarto inferior, não reparou no mulato que ficara lendo o folheto.{192} Quando, passados dez minutos, voltou para mandar procurar um medico, achou Damião a lêr.

—Quem te chamou aqui?—perguntou com azedume.

—Vim eu, snr. conde—respondeu serenamente o mulato.—Estava aqui a vêr quem é que fez isto... Ha de dar-me licença de levar este folheto... Quem o escreveu, dou-lhe a minha palavra de honra, juro-lhe pela alma de seu pae, que não torna a escrever outro. Diga-me, pela memoria de sua mãe, e pela vida da snr.ª condessa lhe peço que me diga quem escreveu isto?