—Não sei, Damião...—respondeu o conde reconhecido ao zelo e vehemencia dos rogos do mulato—Nós o saberemos... Vae chamar medico... Não te demores.
O medico não tardou; mas Damião Ravasco só entrou noite alta. Dizia-se que um mulato, com o fogo do inferno nos olhos, andára perguntando de typographia em typographia se um folheto que mostrava tinha lá sido impresso. Parava á beira dos grupos e imaginava que poderia descobrir rasto por onde fariscasse o auctor do folheto. Estacára no Chiado em frente do deputado da sova memoranda, a vêr se poderia, com mais ou menos justiça, escorchal-o contra um frade de pedra. Offerecêra{193} dinheiro grande a uns agentes da policia que lhe descobrissem a victima. E nestas diligencias que lhe queimaram o sangue e centuplicaram os demonios do máo genio, andou Ravasco todo o dia e grande parte da noite.
Quando chegou a casa foi muito ás surdas até á porta dos aposentos do conde. Escutou e ouviu passear na ante-camara. Bateu de mansinho. O conde sahiu á saleta.
—Como está a senhora?—perguntou Damião.
—Está com febre.
—Não descobri nada—voltou o mulato.
—Não descobriste o quê? que procuravas tu?
—O auctor do papel.
—Prohibo-te que faças taes indagaçoens. Eu o saberei; mas, se o souber, prohibo-te que me vingues. Se o infame não puder ser castigado por um homem de bem sêl-o-ha por um lacaio; mas não por ti que és... meu irmão...
Damião dobrou os joelhos, e cobriu de lagrimas as mãos do conde.{194}
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