Vamos derivar a resposta de tão justa curiosidade desde 1661.

Onde isto vae!

A historia patria, que o leitor conhece impressa, não lhe refere que D. Affonso VI, á volta dos dezoito annos, viu em Lisboa, nas circumvisinhanças de Queluz, uma rapariga muito formosa, pelo braço de um mancebo de boa figura. Encarregou o valido Henrique Henriques de indagar quem fosse a galante menina. Descobriu-se que era Catharina Arrais, natural de Coimbra, donde fugira com seu primo, Manoel Arrais, estudante, a fim de se casarem em Lisboa, logo que obtivessem dispensa de parentesco e remoção de outros impedimentos canonicos attinentes ás fragilidades da sua céga paixão.

Sabido isto, e a residencia dos profugos amantes, estava sabido tudo. Manoel Arrais foi preso e conduzido a Coimbra. Catharina, na noite d'esse dia, foi assaltada no seu esconderijo por um tal Agostinho Nunes e por{197} Henrique Henriques de Miranda que a levaram ao rei.

Dois annos depois, Catharina Arrais era freira em Santa Anna, e Manoel Arrais era fallecido de dôr.

Antes, porém, de ser dada como esposa a Jesus Christo, houvera Catharina uma filha de Affonso VI, a qual se chamou D. Luiza de Portugal.

Esta D. Luiza, quando prefez seis annos, foi transferida a casa do famoso estadista conde de Castello Melhor, onde recebia tratamento de alteza.

Aqui se deteve com honras de infanta até ao anno de 1667, em que o pae já estava preso á ordem do principe seu irmão. Mas um dia o corregedor da côrte entrou á força no palacio do marquez, apoderou-se de D. Luiza de Portugal, e levou-a para o mosteiro de Santa Anna.

Soror Catharina recebeu sua filha, pensionada pelo infante, com a declaração de que sua alteza não a reconhecia como sobrinha; mas a protegia como desgraçada victima da libertinagem de seu augusto irmão.

Vejamos agora o que se fez para destruir as conjecturas de ser filha de D. Affonso VI aquella menina. A historia impressa não o diz. Ha manuscriptos que nos elucidam; e um,{198} que possuo com a maior estimação e de nenhum modo suspeito, vae referir-nos a villissima traça que teceram os partidarios da rainha e do infante para desfazerem a embaraçosa hypothese da fecundidade do filho de D. João IV.