O manuscripto intitula-se: Vida de el-rei D. Affonso VI, escripta no anno de 1684.[[5]]

Dava que pensar e receiar a crença publica de existir a filha do rei. O processo do divorcio, fundamentado em rasoens de torpissima deshonestidade, tropeçava n'aquella menina.{199} O procurador da rainha, duque do Cadaval, refere o expediente que lhe desatravancou o passo. Sobeja malvadez onde a imaginação coxêa no enredo. O homem escreveu isto para a posteridade, e talvez vaidoso de engenhar o capitulo d'uma novela ao sabor do tempo. Conta elle: «Offerecia-se ao duque uma grande duvida do bom successo da causa (o divorcio); porque dizia que era impossivel, tendo el-rei uma filha em casa do conde de Castello Melhor, chamada D. Luiza e com tratamento de alteza. Achando-se este negocio com esta grande duvida, Deus, que é a mesma verdade, foi servido de buscar os meios de se descobrir e averiguar com toda a certeza.

Recolheu-se um dia ao jantar para casa; achou na mão de um criado seu, um escripto que ali tinha deixado um moço. Dizia elle: Se V. Ex.ª quer saber um negocio muito importante para a cauza da rainha com que V. Ex.ª corre, ache-se á noite no seu coche, só, ás escadas do Loreto, de sorte que espere n'aquelle logar o sino da meia noute. E não se assignava o escriptor. Logo foi o duque á Esperança,[[6]] e, mostrando o escripto á rainha, lhe disse ella{200} que de maneira nenhuma queria que fosse, por que aquillo podia ser de grande perigo. Respondeu-lhe o duque que havia de ir, e que deixasse sua magestade á conta d'elle a segurança.

«Reedificava-se a egreja do Loreto do incendio que havia padecido. Tinha no adro um grande telheiro a cujo abrigo trabalhavam os officiaes da obra. Mandou o duque metter n'elle o capitão de cavallos Manoel Travassos e o de couraças Manoel Caldeira, ambos de grande valor. Acompanhavam aos capitães quatro creados do duque, todos valorosos e bem armados com ordem de que, se vissem mais de que uma pessoa, sahissem do logar onde estavam. Foi o duque áquelle logar assignalado esperar a meia noite. Eis que chega ao estribo do coche uma mulher embuçada; e, perguntando ao duque se a conhecia, o duque lhe respondeu que não; e ella lhe tornou que era D. Anna Saraiva, que havia muitos annos o duque a vira e lhe fallara muitas vezes; e disse-lhe o duque que entrasse no coche, e que fossem até á Cotovia, que era parte mais solitaria.

«Disse-lhe D. Anna Saraiva que lhe queria mostrar como uma menina, que estava em caza do conde de Castello Melhor não era filha d'el-rei, posto que tractada por tal. Perguntando-lhe{201} o duque como o sabia, lhe contou toda a historia, e disse que, morando Agostinho Nunes nas cazas do armeiro-mor, a convidou para ir ver botar uma náo ao mar; e que alli vira uma moça bem parecida, descorada e com o cabello cortado; e que, perguntando-lhe algumas cousas a fim de saber quem era, e que vida era a sua, lhe respondeu que as más cores do seu rosto eram effeito da sua dor, e os cabellos lhe haviam sido cortados pela mão d'el-rei. Foi D. Anna, que era destra, inquirindo a môça, até que esta lhe manifestou sua desgraça, e disse que se chamava Chatharina Arrais; e, galanteando-a Manoel Arrais seu primo em Coimbra, viera para Lisboa com animo de casar com elle; e que, morando em umas cazas com o dito seu primo, a foram furtar uma noite Agostinho Nunes e Henrique Henriques, e a levaram ao paço, e pernoitou na camara de el-rei: que seu primo morrera de magua em Coimbra, e ella fôra para casa de Agostinho Nunes, onde se achava, e fôra obrigada a dizer, quando desse á luz, que a creança era filha d'el-rei; e sobre isso lhe fizeram grandes tyrannias até chegar el-rei a cortar-lhe os cabellos. Disse mais D. Anna Saraiva que D. Catharina Arrais estava freira em Santa Anna, e que ella lhe fallara, e estava resolvida{202} a vingar-se, declarando a verdade. Chamou o duque a Agostinho Nunes e em presença de Duarte Ribeiro foi inquirido e disse a verdade. Resolveu-se o duque a ordenar a Aurelio de Miranda, tabellião de notas, fosse ao campo de Santa Anna, perto da egreja, e alli esperasse recado d'elle duque; o qual deixando Augusto Nunes no seu coche, mandou dizer á prelada que quizesse fallar-lhe; e, vindo a prelada, lhe disse que tinha que fallar com Catharina Arrais, e sua mercê lh'a mandasse á grade. Assim fez. Appareceu; e, dizendo-lhe o duque que não vinha tirar-lhe a sua tença, antes conservar-lh'a; que elle sabia a verdade do que tinha passado; que convinha muito que o depuzesse em juizo, e que elle pediria licença á rainha para tal deposição. Veio Aurelio de Miranda. Disse D. Catharina o que havia succedido, e assignou. Averiguada esta materia, foi D. Luiza tirada pelo corregedor da côrte de casa do conde de Castello Melhor, e o infante lhe deu uma tença. Tirado este impedimento, se processou a causa de divorcio até final conclusão, etc.»

Até aqui a fantasia do historiador, atando alguns lanços verosimeis com outros de todo o ponto irracionaes. Que precisão tinha D. Anna Tavares de revelar o mysterio, a deshoras,{203} nas escadas do Loreto? De quem se temia ella, se tinha por si a rainha, o infante, o duque, Agostinho Nunes e todos quantos haviam sido alcayotes do rei preso? Quem teve a sandia credulidade de acceitar que D. Catharina, á primeira vez que via D. Anna, lhe contasse as miudezas vilipendiosas de sua vida? E o caso de el-rei lhe cortar de mão propria as tranças, por que ella se recusava de o acceitar como pae da creança que havia de nascer? Claro é que os personagens d'aquelle tenebroso drama de cruezas e devassidoens eram melhores algozes que romancistas.

Todavia é certo que soror Catharina recebeu sua filha, e, segundo a vontade de quem lh'a pensionára, quiz que ella fosse religiosa. Estava, porém, um amor infantil começado em casa do grande ministro de Affonso VI com D. Pedro de Mello e Alencastre, fidalgo de primeira plana, aparentado com os Castello-melhor. O moço, com quanto nobilissimo, olhava timidamente para a filha do rei; mas, depois que a prepotencia rebaixara a jerarchia de D. Luiza, complanou-se o terreno em que elle mais affoitamente podia requestal-a.

Estreitaram-se as relaçoens amorosas—tanto quanto os degenerados mosteiros do tempo as facilitavam—mantidas, ainda assim,{204} no mais alto ponto da honestidade. D. Pedro de Mello e Alencastre casou com D. Luiza de Portugal, e viveram em uma quinta do Riba-Tejo, em um quasi desterro imposto pelo contrariado infante.

Houveram varios filhos todos varoens, e um d'estes, D. Prior de Guimaraens, de amores com uma dama da côrte e de stirpe muito selecta, reconheceu sua filha D. Maria de Portugal, que casou com Marco Franchiosi, filho de um conde milanez, que militara em Portugal, no fim do reinado de D. Pedro II. Seguiu-se, neta de D. Luiza, D. Maria Izabel Franchiosi de Mello e Portugal e Alencastre, dama da côrte da rainha D. Marianna de Austria, acolhida pela soberana por dó da extrema pobreza em que a deixára o pae, homem de vida estragada.

N'este tempo, appareceu em Lisboa um provinciano riquissimo, de Pinhel, chamado Salvador da Costa Fagundes, a quem D. João V fez capitão de cavallos, deu habito de Christo, foro de fidalgo, e nomeou sargento mór da sua terra.[[7]]{205}