—Mal sabe......
—O quê, minha senhora?
—Quantas lagrimas eu tenho chorado sobre este jornal...... lagrimas inuteis, que fariam até sorrir de piedoso motejo as pessoas felizes......
Todas as fibras sensiveis e sonoras da minha alma se desataram então em plangentes melodias de coisas, de que não tomei apontamento; porém, taes e tão insinuantes lh'as influí no animo, que vinguei merecer-lhe confiança e desafôgo de sentimentos circumspectamente abafados.
Esta confiança, com as visitas diarias, fez-me digno de lhe ouvir, interpoladamente, revelaçoens que vou compendiar, de mistura com{20} esclarecimentos obtidos, Deus sabe com que perspicacia e finura.
D. Maria José havia nascido em Lisboa, no anno de 1832. Seu pae era o snr. D. Miguel de Bragança, rei n'aquelle anno. Sua mãe tinha sido D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolim de Portugal, senhora portugueza, nascida em Lisboa, e descendente de fidalgos de régia plana por bastardia, como ao diante se dirá. Vivêra D. Maria em companhia de sua mãe, rodeada de pompas, aias, mestras e caricias, até á edade dos quinze annos. Lembrava-se de sua mãe ter carruagem brazonada, librés, e relaçoens de grande posição na aristocracia; e, em meio d'esta disfarçada felicidade, a vira frequentemente lavada em lagrimas, que de dia para dia lhe iam desbotando a formosura deslumbrante.
Observou mais que as alfaias valiosas desappareceram umas depós outras; que a sege foi vendida; que os convivas rarearam á mesa; que os hospedes da noite foram tambem rareando, e que em fim ninguem entrava na casa desbalisada de sua mãe, senão duas senhoras de baixa origem que a não desampararam até á morte.
Lembrava-se tambem de que sua mãe, nos derradeiros annos da vida, abrira um hotel; e, n'essa posição decahida, morrêra.{21}
A morte de sua mãe não sabia ella dizer se foi natural, se violenta. Conjecturava, porém, que houvesse sido suicidio com veneno contido em um frasco de crystal, que depois se encontrara vasio. Era esta hypothese confirmada pelo caso de sua mãe, na véspera do dia em que se finou, lhe haver dado um cofre de sandalo, dizendo que lhe não podia legar outro patrimonio; mas que, n'aquella caixa, encontraria titulos que a elevassem sobranceira ás primeiras senhoras de Portugal.
Ora o cofre encerrava cartas do snr. D. Miguel—cartas que ella me não mostrava por conterem coisas intimas e segredos de estado de maximo melindre.