Fallecida D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolim de Portugal, a orphã, que então vicejava uns quinze annos, como facil me foi imaginar-lh'os, passou para a companhia das duas mulheres, unicas pessoas que assistiram aos funeraes de sua mãe.
Por conselho d'estas, escreveu a alguns homens insignes e relaçoens de sua casa, participando-lhes que estava orphã. Contava ella que cada palavra escripta lhe custava uma lagrima por sentir-se abatida n'aquella mal dissimulada supplica de esmola. Ninguem lhe respondeu, exceptuado um agiota de raça judaica e humilde extracção que devia, não{22} sabia ella como, a sua prosperidade á mãe, de quem havia sido escudeiro, mordomo, ou coisa assim.
Quiz este homem leval-a para sua casa; mas, como ella se esquivasse a deixar as duas senhoras, o generoso agiota offereceu-lhe abundante mesada, que ella acceitou para soccorrer as amigas que a não podiam alimentar e vestir sem sacrificio.
Aos desoito annos, D. Maria José alcançara notaveis conhecimentos litterarios, sem descuidar-se de outras prendas mais caseiras e accommodadas ao seu sexo.
N'aquelle anno de 1850, falleceu o caridoso rebatedor, testando á filha de D. Marianna de Portugal nove contos de reis em inscripçoens e um predio pequeno na rua Nova da Palma.
Longo tempo indecisa no destino que melhor lhe quadrava, foi habitar a casinha herdada, porque, primeiro que tudo, almejava a soledade, a tristeza, o recolhimento, a leitura, o chorar sem testimunhas nem consolaçoens importantes. Os ultimos lances da vida de sua mãe, e a penuria do seu proscripto pae davam-lhe horas muitissimo amarguradas. N'aquella doentia compleição havia que receiar quebra de juizo por excesso de sensibilidade, ou morte prematura.{23}
Divulgou-se a residencia da filha de D. Miguel. Muita gente duvidou-lhe da filiação. Outra acreditou, poetisando o caso de sua natureza prosaico e vulgar como todos os phenomenos d'esta especie. Uns e outros, ainda assim, forcejaram debalde por vêl-a.
D. Maria José, ao abrir da manhã, em dias santificados, ia á missa d'alva, e voltava a horas em que nenhum homem de siso sairía da cama para vêr a propria Semiramis. Á casa da Rua Nova da Palma entravam apenas as duas amigas de sua mãe, conhecidas pelas Picôas, e presumidas descendentes bastardas dos condes de Povolide. Com certeza, porém, estas duas irmãs, Rozenda e Euphemia, nasceram e criaram-se na casa chamada das Picôas, onde seu pae tinha sido estribeiro-ferrador, e sua mãe ama sêcca dos fidalguinhos.
Redarguindo contra este argumento dos linhagistas de estrebaria, Rozenda e Euphemia asseveraram—por lh'o haver affirmado a mãe com tal qual competencia, ao que é de suppôr—que o pae d'ellas não era o ferrador; mas sim um monsenhor parente da casa. Não me recordo bem se diziam monsenhor da patriarchal, se dom abbade de bernardos, declaro. N'este livro, se alguma vez a verdade gretar, é involuntariamente. Assim que me{24} pruem escrupulos, coço-os com a rectificação. Escrever para a posteridade é assim.
Aquellas duas senhoras, ambas prolificas, iam com os seus meninos já pennugentos de buço a casa de D. Maria José; e uma d'ellas, D. Rozenda Picôa, proprietaria d'um hotel na Travessa do Estevão Galhardo, levava comsigo um filho já barbaçudo que dizia ser litterato-politico, e se chamava Victor.