Este sujeito é quem nos botequins andava pregoando a belleza e os dotes espirituaes da filha do snr. D. Miguel; e tão a miudo e encarecidamente o fazia que sobrava rasão a desconfiar que elle, amando honestamente D. Maria, queria subir pelo estribo do avô ao cavallo branco do timbre ducal das armas bragantinas, ou guindar-se ao banco de pinchar, para não ficar estatellado sobre o banco do ferrador. E D. Rozenda, mãe d'este litterato-politico, algumas vezes deu a perceber á princeza que as suas entranhas maternaes estremeciam de jubilo, quando sonhava com o hymeneu de Victor e Maria.
É certo que a neta dos reis se nauseava, se a indiscreta albergueira repetia similhante injuria; mas tanto era seu juizo que nunca levou a desaffronta além do silencio.
Convem saber que Victor, nos seus primordios litterarios, quando se viu no Chiado,{25} com a republica a fervilhar-lhe nos miolos, ajuntou ao nome o sobrenome Hugo, crendo que o chamar-se Victor era predestinação que o fizera sahir já republicano da pia: e d'ahi o assanhar-se contra os monarchas, á imitação d'aquella sublime vêspa que zunia estrophes demagogas em Gersey.
Obrigado pelo sobrenome, Victor fez versos vermelhos como sangue de javali. As suas quadras cheiravam a gamella de fressureira. E tambem, nas prosas d'elle, as testas coroadas não eram tratadas com mais caridade que a syntaxe.
No emtanto, os criticos ordeiros, vituperando a ira republicana do rapaz, diziam que não admirava raivasse tanto contra os nobres quem era filho de um sapateiro, ao qual muitos fidalgos não haviam pagado os remontes, e neto d'um ferrador a quem outros fidalgos não haviam pago as ferraduras.
Esta matraca, impressa nas gazetas, desvairou o litterato que forçou a mãe a declarar pelos prélos que seu defunto marido não havia sido sapateiro; mas sim negociante de couros. Ninguem contestou; já por ser verdade, já porque ninguem podia desfazer na palavra da snr.ª Picôa, quanto á mercadoria do snr. João José Alves, seu marido. Pelo que respeita ao ferrador, guardou ella judicioso silencio em{26} attenção ás cinzas do dom abbade de bernardos.
Manteve-se o politico, não obstante, socialista e orador de assemblêas populares até 1854. N'este anno, porém, ahi por maio, quando as arvores florejam, e as calhandras trilam, e nas quebradas dos montes hervecidos ornejam as poesias lyricas da preceptora de Balaam, achou-se Victor Hugo José Alves invadido d'amor.
Se não amaria! Era maio portuguez, sasão de paraizo terreal, em que a todos nos quer parecer que o matrimonio foi inventado pelos cardeaes na primavera.
Notou-se então no paiz, e particularmente desde o Chiado até ao Rocio, que o Hugo da travessa do Estevão Galhardo gorgeava umas endeixas passarinheiras que ninguem creria destiladas do mesmo craneo que trovejara Nemesis clangorosas de odes republicanas! Elle, o Victor, que dissera em dous versos:
Eu hei-de avassallar os reis ao genio,
E pol-os histriões sobre um proscenio,
E... etc.