Travou-se entre os dois emulos batalha de odios abafados, que mais tarde levaram Sicard, já alferes de cavallaria, por denuncia aleivosa de Ferraz, á Torre de S. Julião, onde morreu.{208}

Presume-se, todavia, que D. Marianna decidira o pleito a favor do cadête, por maneira tão decisiva e inappellavel que se estadiava em publico, de braço dado com o esbelto môço.

Tambem conjuraram bastantes tradiçoens a confirmar que o desembargador Ferraz, homem teimoso e rico, lográra tal qual dominio no coração de D. Marianna, á custa de liberalidades, entre as quaes realçavam o palacete e a carruagem.

Que D. Marianna de Portugal quiz mais tarde legitimar um filho para succeder na herança do magistrado é de todo o ponto inquestionavel, segundo jura o prior de S. Nicolau; mas essa creança não desdoira os creditos da quinta neta de Affonso VI. Era um filho artificial.

A opinião publica desdoira as mães dos filhos naturaes; dos artificiaes, não. Ultraja-se a natureza e respeita-se a arte.

Vivia D. Marianna de Portugal fóra de portas, quando D. Miguel a viu. Sua sexta avó D. Catharina Arrais soprara a mesma lavareda no peito de Affonso VI. Mas o real amante, graças á brandura de costumes d'este seculo, não a tosquiou, antes lhe beijou as tranças, e se deixou encadear por ellas. Tambem não consta que Marianna se doêsse do pejo da maternidade, á imitação da freira de Santa Anna,{209} consoante o duque de Cadaval a calumniou. Muito pelo invéz: ella adorava o principe, e sentia-o na alma e no sangue quando a creança lhe palpitava no seio.

Attesta o coronel José Joaquim do Cabo Pinto, no opusculo reeditado por Victor Hugo José Alves, que D. Marianna visitava D. Miguel de dois em dois dias. Isto não me parece exacto. Pendo a crêr que ella o visitasse todos os dias. Quanto á espionagem, que lhe assaca o desbragado commendador d'Aviz em estylo de tarimba, isso é calumnia a descambar em parvoice. As espias absolutistas não tratavam com o rei directamente: começavam no Miguel alcaide, e tocavam o ápice do valimento se levavam a denuncia até ao intendente geral da policia.

D. Marianna de Portugal empobreceu durante a sua intimidade com o rei. Para sustentar carruagem, libré e uma apparente abastança, vendeu as joias da mãe, depois que exhauriu o peculio que amealhara nos cofres do desembargador. Animo isempto e estreme de vil ganancia ostentou-o nobremente quando o coração predominou e abafou os baixos sentimentos que a pertinacia do desembargador lhe implantara na alma plebeamente educada. Um amor grande com os luzimentos verberados{210} da corôa real, devia ser segundo baptismo para o coração da neta de reis.

Acabada a guerra e desterrado o infante, D. Marianna estava pobre e tinha uma filha.

O desembargador Ferraz volveu a procural-a como amigo, como protector, e como velho inveterado de paixão, agora exacerbada pelos realces que o amor de D. Miguel haviam resurtido da belleza de D. Marianna.