Se é preciso confessar que a desvalida senhora acceitou a protecção do magistrado por amor á filha e desamor á penuria, diga-se o delicto bem alto, e haja de lhe perdoar em silencio a notoria sensibilidade do leitor.

Voltou a neta de D. Catharina Arrais a equipar sege e lacaios; mas, em 1838, o desembargador, aquelle Merlin cupidineo, levou comsigo para o inferno dos desembargadores a lanterna milagrosa que fazia prodigios de ouro á volta de Marianna.

Recorreu a mãe de Maria José ao expediente da hospedaria. N'esse trato, ia provendo á educação da filha, e costeando certas pompas um tanto desbotadas, mas incongruentes ainda assim com o seu estado. Contrahiu dividas, precipitou a queda na rampa da uzura; e é bem de presumir que o agiota, de quem a filha herdou, a desbalisasse a termos de lhe {211} não poder a consciencia com o roubo. Exemplo unico.

O insulto publicado em 1840 impeçonhou a vida da infausta vergontea de Bragança. Os tres annos que ainda arrastou á volta da filha, como quem se estorce e despedaça entre o amor de mãe e a necessidade de morrer, foram expiação acerba, purificação que nos torna respeitavel a memoria d'esta senhora de tão illustre sangue.

Em 1842 devia ter D. Marianna de Portugal quarenta annos proximamente, e vivia ahi por perto da Praça dos Romulares, com o seu hotel bastante luxuoso ainda, para dignamente hospedar o principe Lichnowsky.

Este principe viu-a, admirou-lhe as graças, comquanto já desluzidas, e então soube que uma linda menina, que ali se via, era filha do principe proscripto. Nas suas Recordaçoens, do anno de 1842, escreveu elle: Fui recebido na rua de... em uma hospedaria...[[8]]A dona da casa, uma ci-devant bella mulher com ainda classicos vestigios de depostos encantos, esteve antigamente na posse de ternas relaçoens com D. Miguel. Ha mesmo alguem assás atrevido{212} para chegar a assegurar que existem provas vivas d'aquella perdilecção real.[[9]]

Poucos mezes mais disputou a vida atormentada, a desgraça, que, de dia para dia, lhe esvasiava os guarda-fato e os bahús. Não é mister rendilhar phrases lugubres, que deixem transparecer as dilaceraçoens que a levaram ao suicidio.

Duas palavras bastam: vergonha e pobreza. Vergonha dos opprobrios d'aquelle folheto, e ninguem que a defendesse. Pobreza, que explicava o desamparo dos protectores, e a impunidade da injuria.

Morreu, descansou.{213}

[XVI
RESSURREIÇÃO DE UMA ALMA]