Nec sine premio virtutes.
Não ha virtude despremiada.

BOETIUS, da Consolação da Philosophia, Liv. IV.

A medicina, informada da origem da enfermidade moral da condessa, aconselhou viagens como distracção. O caracter intermittente dos accessos de lagrimas, e a incongruencia das palavras, delirantes sem febre, eram symptomaticas de perturbação de juiso. Todo seu empenho apontava em provar ao marido que as affrontas atiradas á sepultura de sua mãe eram calumniosas. O conde esforçava-se por convencêl-a de estar d'isso bem persuadido; ella, porém, sobrevinha na mesma prova, se despertava apoz um breve espaço de repouso.

Assim que a desfigurada condessa ganhou{214} forças e se docilisou ás carinhosas supplicas do marido, aprestou-se tudo rapidamente para a viagem.

Da casa e direcção dos negocios do conde ficou encarregado Damião Ravasco. O mulato exultou quando o dispensaram de os acompanhar, sem todavia manifestar o intento que o prendia a Lisboa. Toda a sua esperança era descobrir o publicador do folheto, bem que de si para comsigo devia ser um dos dois que elle esmurraçára, sem embargo de lhe dizer Christovão Tavares que suspeitava muito d'um tal Victor Hugo. Queria muito o mulato que lh'o mostrassem a fim de o não procurar longo tempo, se um dia o diabo o atraiçoasse. E, com effeito, chegou a vêl-o á porta do Marrare do Chiado. Contemplou-o com disfarce, e disse entre si: «deve ser este!» Entretanto, as cartas vindas de differentes paragens da Europa, não davam esperanças do restabelecimento da condessa. A monomania da justificação da mãe resistia ás diversoens, aos rogos, ás caricias, e á therapeutica dos banhos, frios da Allemanha.

No outono de 1860, chegaram a Baden, esperançados nas aguas mineraes. Ao mesmo tempo, chegava D. Miguel de Bragança com sua esposa e alguns filhos.

O conde levou alvoroçado a noticia á enferma,{215} que teimava em não sahir do seu quarto. A condessa agitou-se, riu-se, chorou, bateu as palmas, abraçou o marido, beijou a sua amiga Ernestina, e exclamou com febril vertigem:

—Vou vêr meu pae!... vaes vêl-o, Raul!... verás o que elle te diz de minha mãe... verás que é tudo calumnia!...

Mas o conde receiava que o infante desconfiasse da sanidade intellectual de uma senhora que lhe saisse ao encontro a chamar-lhe pae, sem de antemão se haver prevenido para tal apresentação.

Contida no seu enthusiasmo a condessa por considerações de etiqueta indispensaveis com os principes, o conde fallou a um sacerdote da pequena comitiva do infante, e industriou-o sobre a maneira de precaver D. Miguel para ser cumprimentado por uma dama portugueza, a condessa de Baldaque.

O principe alegremente mostrou vivo desejo de conhecer a esposa de um cavalheiro a quem elle e os legitimistas portuguezes deviam relevantes finezas.