—Deixemo-nos de atalhos agora de noite!

—Não tenha medo, patrão. O snr. não traz rewolver?—dizia e affoitava a parelha.

—Trago rewolver; mas...

—Então que medo tem?

—Não é medo de ladroens; é medo que esbarrondes a sege! Olha que o caminho vae já bater ahi n'uma charneca fechada, não vês? Volta para traz, bruto!

Damião Ravasco não respondeu. Levou impetuosamente os cavallos aos sacoens até entestal-os com um comoro eriçado de piteiras e socavado nas margens resvaladias, e saltou de golpe da almofada, quando as bestas se escabravam trepando á valla.{230}

Este abrupto salto, depois da pertinacia do cocheiro em fustigar os cavallos contra o vallado, incutiu em Victor Hugo a suspeita de estar em perigo de ser roubado pelo mulato. Instinctivamente arrancara do rewolver, quando o boleeiro saltou. E, no conflicto em que Damião arremettendo á sege, puchava de repellão pelas cortinas embreadas, Victor desfechou-lhe um tiro na face, e o segundo no respaldo da sege, porque o pulso lhe estalou e revirou-se na mão do mulato como se os ossos se deslocassem dos ligamentos estorcidos por uma tenaz.

E do mesmo impeto fincou-lhe na garganta a garra esquerda, e empuchou-o para fóra da sege.

Victor, escabujando de encontro aos raios da roda, rugia gritos de soccorro, luctando em balde para arrancar a mão ainda armada á torquez que lhe desarticulava o pulso.

O mulato remessou-lhe um joelho ao ventre, e disse-lhe n'um rouquejar de voz, mudada em bramido pela ferocidade da ira: