—Hasde saber quem sou, perverso ladrão! Sou o preto do conde de Baldaque. Dá-me seis tiros na cabeça antes que eu te corte a tua. Um já cá o tenho no rosto; se morrer delle, perdoo-te.
Á ultima palavra vociferou elle um rispido{231} regougo, coisa parecida ao soturno urrar da féra; e, no mesmo acto, arrancou da navalha espanhola já aberta entre a manga da jaleca e o braço, e cravou-lh'a através da garganta.
Era cadaver o insultador da condessa de Baldaque; mas o leão não desenterrára os gryphos aduncos das carnes do tigre morto.
A cólera recrudescia ao compasso da dôr atroz que lhe sangrava na cara. Levou a mão ao olho direito, e retirou-a empapada em sangue e humores. Receiou morrer, e este mêdo dava-lhe vertigens, e um raivar de demonio, cada vez que o sangue barbotando lhe tolhia a vista.
Talvez que a vingança ficasse áquem das raias da barbaridade, se Victor o não houvesse ferido mortalmente, como elle suppunha. Travou dos cabellos ao cadaver, e correu-lhe á volta do pescoço repetidos golpes até o degolar. Atirou para dentro da sege a cabeça, e deixou o restante no chão ensopado da sangueira.
Antes de repontar o sol, sege e cavallos estavam na cocheira do conde.
A cabeça de Victor Hugo foi submersa em álcool n'uma vasilha negra. E Damião Ravasco, entregue aos cuidados de Chistovão Tavares e d'um cirurgião, soffria a dolorosa anatomia{232} da extracção do olho direito e esquirolas da orbita correspondente.
Ai! elle não poderia mais vêr a cabeça de Victor Hugo José Alves senão com um olho!
Do apparecimento do cadaver descabeçado na Azinhaga das Cobras deve lembrar-se perfeitamente o leitor de Lisboa. Primeiro, disse-se que era uma victima das vinganças clandestinas dos carbonarios. Alguem pensou que fosse o administrador do concelho de Oeiras, que n'esse dia estava sadio e incolume em Cascaes namorando a grega. Outros, os mais sensatos, pediam a cabeça do sujeito para fazerem o seu juiso ácêrca da identidade da pessoa. A final soube-se quem era, por causa d'umas cartas de namoro que lhe encontraram na algibeira, dirigidas a Victor Hugo; mas tambem isto foi motivo a conjecturar-se que o auctor do Napoleon—Le petit, viera incognito a Lisboa, e o imperador dos francezes o mandára assassinar, decapitar, etc., etc. O que é certo é que muita gente, quando se disse que o descabeçado era o Victor, filho do Alves dos coiros, respondeu brutalmente: Foi bem feito.
Sarado da ferida, mas cego do olho, e esburacado no bordo inferior da orbita, Damião Ravasco, liquidado o trem da homicida façanha, fez-se ao mar e mais o official realista e{233} as filhas e os netos. Marselha era o itinerario prescripto pelo conde. Dirigiram-se á rua Camebiere, hotel des Empereurs.