Entraram juntos á sala privativa do conde. Damião ia na frente, sobraçando uma caixa de estanho, com argolas lateraes. Quando se defrontou com o conde e a condessa, ambos exclamaram espantados da tão differente cara de Ravasco:
—Que é isso!?—bradou o conde—Vens cego de um olho, Damião?
—E que profunda cicatriz elle tem na face!—disse a condessa.
—Que foi isso?—tornou o irmão.
—Este olho que me falta—respondeu Ravasco pousando o caixote sobre uma banca; e repetiu:—Este olho, que me falta, tirou-m'o um sujeito chamado Victor Hugo José Alves.
—Porque, meu Deus?—disse a condessa.
—É possivel!?—exclamou o conde—E tu...
—Eu sempre ouvi dizer ao meu mestre de latim: «olho por olho, dente por dente»—respondeu Ravasco;—mas, a fallar a verdade, não me accommodo com esta lei. Quem me tira um olho a mim ha de ficar sem dois, pelo menos.
E, dizendo, destapava a caixa de estanho. A condessa tremia convulsamente. O conde encarava-o estupefacto. O ex-brigadeiro e as{234} filhas e netos agrupavam-se á volta da condessa. E Damião continuou:
—Ora eu que não tinha vagar, nem a occasião era a melhor, para tirar os dois olhos ao sujeito que me tirou um, achei que o mais summario e seguro era cortar-lhe a cabeça. Eil-a aqui! Vejam se a conhecem!—disse o mulato, mostrando a cabeça tragica, mergulhada em espirito de vinho, no amplo frasco extraído da caixa.