A condessa parecia desmaiar nos braços do marido, exclamando em extrema afflicção:
—Jesus! que horror! que barbaridade!...
—Horror, sim, minha filha!—disse o conde—mas barbaridade... Não culpes Damião sem o escutar.
E Ravasco, aproximando-se da condessa, fallou serenamente:
—Eu tenho pouco que dizer em minha defesa, snr.ª condessa. Em Lisboa sahiu um folheto no qual se dizia que sua mãe roubava padeiros de quem era amazia...
—Silencio!—bradou o conde.
—Deixe defender-se o barbaro, snr. conde!—volveu Damião—N'esse folheto havia uma nota em que se dizia que o conde de Baldaque casára com uma aventureira. Se o snr. conde casasse com uma mulher perdida, eu não o vingaria, por entender que era justo{235} o castigo; mas como eu sei que V. Ex.ª era uma senhora honesta, entendi que devia cortar a cabeça d'onde sahiram os insultos a V. Ex.ª e a um homem que me chamou irmão. Não tenho mais que dizer. Cá levo a cabeça para lhe dar honrosa sepultura nos esgotos de Marselha.
E sahiu com o caixote debaixo do braço. Na sala era tetrico e profundo o silencio. Nem que aquillo fosse a cabeça de Holofernes, ou de Pompeu! E as lagrimas derivavam copiosas no rosto de Maria José.
Ó egregia alma, como essas lagrimas deviam ser abençoadas do soberano e inexprimivel Espirito que tão perfeita scintilla de sua divindade te bafejou no berço!{236}{237}