Jorge

Nem levemente: começo a vêr novos abysmos.

José de Sá

Tambem eu, Jacome.{164}

Jorge

Esta minha vinda a Portugal...

José de Sá

Eu não t'a aprovei. Se o teu intento era completar um plano de vingança, fizeste bem não me consultar. Eu te responderia que uma grande calamidade não justifica planos sanguinarios, por melhor mascarados que venham em requintes de pundonor. Se me consultasses, dir-te-hia que a honra que ensanguenta as mãos só póde a allucinação desculpal-a, e que um assassinio premeditado vinte annos é um acto de selvageria, se a demencia o não desculpar. Quando me avisaste da tua chegada ao Porto com um pseudonimo, comecei a duvidar da sanidade do teu juizo. A mudança de nome não podia dissimular um plano incompativel com a honra que te perdeu.{165}

Jorge (interrompendo-o e levantando-se com impeto)

A honra que me perdeu!.. excellente palavra. A honra devia nobilitar-me, se era honra. O que perde e avilta deveria ser o despejo, o cynismo, o impudor, o desvergonhamento que petrefica na cara do infame a lama que lhe atiram. Comigo não foi assim. A honra quiz desafrontar-se; sacudi de mim a vibora que me crivava o coração de infernaes farpas; mas a sociedade e a sua justiça vieram e bradaram-me: «Vae, condemnado; vai-te sem alma, sem dignidade, sem amigos, sem a misericordia de ninguem! Vae-te n'essa leva de ladrões e facinoras; vae contar na Africa as horas de 7300 dias e noites. Vae, por que tiveste a audacia de condemnar pelo teu desforço os centenares de despejados que não consentem que tu sejas mais brioso do que elles. Se querias gozar os teus direitos de cidadão, se querias a liberdade dos homens de bem, se querias a consideração dos honestos, recebesses a affronta em silencio, embora a sociedade te visse o{166} ferrete na testa; ostentasses ignorancia da tua deshonra; apertasses em publico a mão que estrangulara na garganta de tua mulher os sagrados juramentos da sua lealdade. Se da tua casa haviam feito um prostibulo, e dos teus carinhos de esposo um incentivo para irritar os prazeres do crime, bebesses o teu calix como tantos para quem o fel de uma deshonra de mera convenção chega a perder o seu travo. Quem te disse a ti, assassino, que a vida humana não era inviolavel? Eras marido amantissimo? Estremecias tua mulher com ternura de pae? Durante trez annos de idolatria não imaginaste sequer que o teu amor podesse ser assim galardoado? E foste trahido? E foste apunhalado pela mão que beijavas? E viste a mulher adorada roxeada nas faces pelos beijos d'outro homem? viste-a bem perdida, bem na lama, bem no abysmo? Não importa. A vida humana é inviolavel! Soffresses, miseravel! Acceitasses a ignominia que deixou de o ser desde que os infames a partilhal-a são tantos que não se podem escarnecer. E, se tinhas necessidade de sacudir o dardo do coração,{167} bebesses tu o veneno, e morresses, e deixasses tua mulher viuva e formosa viver, a sua inviolavel vida e gozar-se na inviolabilidade da sua devassidão...» É assim que a sociedade falla aos desgraçados como eu, José de Sá?