José de Sá
Desafoga, Jacome; mas em nome das tuas infinitas amarguras te peço que vejas em mim o unico homem que te quiz enxugar as lagrimas. Eu louvo os moralistas, que escrevem excellencias sobre a inviolabilidade da vida humana, e invejo-lhes o socego, a placidez, o solido raciocinio com que legislam para as paixões no conforto do seu gabinete. Esses taes nos darão exemplos de cordura quando a sorte funesta os collocar entre a deshonra e a theoria; mas, meu querido amigo, não me perguntes se a tua vingança está cumprida, e se a tua desaffronta requer a vida d'esse esmagado homem que hontem á noute viste cahir nos meus braços. Que queres tu fazer d'aquella preza de remorsos? Não o vês tão dobrado pela mão da Providencia?{168} Não lhe vias na face a escuridão profunda d'aquella alma?
Jorge
E quem te disse que eu vim a Portugal procurar esse homem para o matar?
José de Sá
Suspeitou-o o receio que tenho de que o prazo dos teus infortunios ainda não esteja fechado.
Jorge
Essa suspeita vinda de outro que não fosses tu seria ultrajante. Se nos meus designios entrasse a morte de tal homem, eu não praticaria o abjecto ardil de entrar disfarçado em sua casa. Hontem te disse no baile o que alli fôra fazer. Encarei o reprobo que tremia debaixo do fardo da sua ignominia. Não tenho mais que vêr. A vida é o patibulo d'aquelle condemnado. A Providencia sentenciou-o. Para que não falte nada ao seu supplicio até a coragem do suicidio o desamparou.{169} Creio em ti, Deus! Não se é perverso impunemente. Os que morrem afogados nas lagrimas que fazem chorar não são os que mais dolorosamente expiam. Incomportavel inferno deve ser-lhes o recordar-se!.. A minha vingança, José de Sá, completa-se com a vida do algoz da minha felicidade. Quero que elle viva. Não tenho mais que fazer em Portugal.
José de Sá
Tens. O teu coração póde reflorecer ainda. Penso poder vaticinar-te um resto de vida com luz, com alegria, com amor. Eu suspeito que Leonor existe.