Pedro

Affirmo a V. Ex.ª que a esposa de Rodrigo de Vasconcellos é filha de D. Martha de Villasboas, e que a pulseira não a houve do sogro, mas sim de D. Maria da Gloria, irmã de sua mãe.{191}

Jorge (rapido)

Entendi eu bem? Repita... Comprehendes tu, José de Sá? Repita o snr...

Pedro

Que o filho do visconde está casado com uma senhora cuja filiação ainda hontem ignorava. Sabe D. Eugenia que V. Ex.ª foi o marido de sua mãe, e tambem suspeitava desde muito, e desde hontem principalmente soube que V. Ex.ª, desconfiado da lealdade de sua senhora, repulsára uma menina chamada Leonor, a qual viveu em um Recolhimento, chamando-se Eugenia, e d'esse Recolhimento sahiu com uma prima do honrado rapaz com quem casou. Esta deploravel senhora está hoje apertada na cruelissima angustia de se vêr apontada por V. Ex.ª como filha do pae de seu marido. Este conflicto é pungentissimo para uma alma, cuja sensibilidade está exaltada por sentimentos religiosos. Eu acabo de presenciar a destruição rapida que a paixão e a vergonha estão fazendo n'aquella desoladissima{192} senhora—vergonha de ser apontada como filha da adultera morta a veneno, e como suspeita filha do cumplice de sua mãe, e esposa de seu proprio irmão! Fui chamado a confidenciar n'este inferno, e aconselhei-a que occultasse o mysterio do seu nascimento. «Não posso, bradou ella, sinto-me morrer esmagada pelo opprobrio da minha situação. Se o visconde é meu pae, receio vêl-o morrer ás mãos do matador de minha mãe; se meu pae é Jacome da Silveira, eu não posso deixar de me abraçar n'aquelle grande desgraçado, e dizer-lhe que sou sua filha!»

Jorge (interrompendo-o com as mãos fincadas nos braços d'elle)

Ouça, snr... Ella chamou-se Leonor? É filha de Martha? Foi ella mesma que lhe disse: «eu sou filha de Martha?»

Pedro

Quem poderia dizer-m'o senão a snr.ª D. Eugenia?{193}