Jorge

José, como comprehendes tu isto?

José de Sá

Que tens a tua filha. A Providencia collocou o anjo á borda d'um abysmo em que tarde ou cedo cahirias.

Jorge

Vá dizer-lhe que está aqui seu pae... Diga-lhe que eu lhe inundei o rosto de lagrimas quando a deixei no berço aos trez annos. Diga-lhe que ajoelhei com ella nos braços, e dei brados a Deus pedindo-lhe um abalo no coração que se despedaçou quando a infernal duvida m'a desentranhou do peito, e eu a repulsei, exclamando: «não és minha filha». Nas primeiras noites de carcere, eu via um spectro, e uma sombra compadecida, como a de um anjo lagrimoso. O anjo quando eu cahia de rosto contra as lages, e adormecia atrophiado pelo frio da madrugada, punha-me{194} na face a mão e aquecia-m'a; collava os labios nos meus ouvidos aturdidos de um gritar estridente, e dizia-me: «pae». Eu despertava, e cria que a febre cerebral ia matar-me... Fui para o desterro. Por entre o bramir, das ondas ouvia o vagir da creancinha; e de noite, buscando-a no céo, parecia-me vêl-a envolta em mortalha branca, entre as nuvens que passavam, e as estrellas que pareciam contemplar em mim o homem que reuniu em si quantas agonias Deus pôde crear n'um dia de cruel omnipotencia. Eu não podia então chorar como hoje. Deus não me deu a esmola das lagrimas para que o reconhecesse e confessasse na hora em que viesse a encontrar a face do anjo que nas infinitas noutes de degredo ainda me apparecia e dizia: «Espera» Chegaram. Sinto as lagrimas. Sinto-as no coração, que renasce; mas aqui dentro ha um anciar que me suffoca... Onde foi Deus levar minha filha?.. (sorrindo) Deus!.. Onde hei de eu ir procural-a?.. Alli... alli onde a desgraça, um acaso, um accidente estupido a levou! Hei de eu ir buscal-a, pedil-a... a quem? ao marido? ao filho do meu{195} algoz? Meus amigos, este apparecimento de minha filha não é um bem com que Deus me premeia... É uma nova esponja de fel, que me dão para eu matar a minha sêde d'amor e de felicidade. Não existe... Leonor está morta para mim... para sempre morta... meu Deus!.. Deixai-me choral-a segunda vez. (Esconde o rosto soluçante entre as mãos).

FIM DO PRIMEIRO QUADRO

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2.º QUADRO

Ante-camara luxuosa. D. Eugenia ajoelhada á beira de um berço com armação de cortinados, contemplando um filho de poucos mezes. Rodrigo, com o aspeito quebrantado, vem entrando vagarosamente.