SCENA I
D. EUGENIA E RODRIGO
Rodrigo (com muita brandura)
Eugenia...
D. Eugenia (levantando-se)
Meu bom anjo, estavas aqui?{198}
Rodrigo
O sorriso da creancinha alumiou a escuridão da tua alma?
D. Eugenia
Adormeceu, e suspira de sorte que parece lhe está gemendo o coração... (beijando o rosto da creança) Eu não posso com tantas agonias, Rodrigo! (abraçando-o impetuosamente) Espedaça-me o arrependimento de não te haver dito o nome de minha mãe... Eu sei que teu pae me daria o pão da subsistencia ainda que não fosse causa da morte d'ella; mas minha tia disse-me que eu seria desprezada e repellida, se declarasse o nome de minha mãe; que as mais deshonestas senhoras teriam vergonha de se compadecerem de mim; e que eu, sobre tantas desventuras, tinha a da pobreza, a mais repugnante de todas. Isto me dizia a minha sancta tia, lavando-me o rosto com lagrimas, como se quizesse purificar-m'o das manchas do opprobrio da minha infeliz mãe. Mas o que ella me não disse foi{199} que eu não poderia proferir sem receio o nome de meu pae. Ella não quiz aviltar aos meus olhos a sua pobre irmã assassinada. Nem me revelou quem foi o homem que a tentou e perdeu, nem sequer me deixou entrever a duvida de que eu fosse filha d'esse, que hontem cobriu de eterno lucto a nossa familia. Se elle não é meu pae, Rodrigo, que me és tu a mim? Não vês que o marido de minha mãe dirá que eu sou tua irmã, e que o nosso filho herda a deshonra d'esta nossa união impossivel... impossivel, meu Deus!