Jorge

O horror não é matar; é sobreviver a esse cadaver que deixa uma herança de deshonra eterna. O horror é viver com o pozo d'esse cadaver, não sobre a consciencia, mas sobre o coração esmagado para nunca mais ressurgir. Para que V. Ex.ª possa sem espavorir-se,{135} pôr os olhos de sua alma no homem que matou Martha, imagine-o esposo, amante e apaixonado, ao quarto anno ainda noivo, cuidando que sua mulher a cada novo dia que vem sempre de caricias, sente a precisão de redobrar de ternura e gratidão. Veja-o de joelhos, ao pé de um berço onde lhe brincava com os beijos uma creança que elle chamava filha...

D. Eugenia (com impeto)

Então V. Ex.ª conheceu-o?

Jorge

Se conheci!.. Considere-o de repente sem a esposa, sem a filha, com a alma varada pela morte das duas vidas que viviam n'elle. A mãe descaroada vae ao berço onde está a creança, grava-lhe no rosto o labéo da sua infamia, involve-a na sua mesma mortalha, sepulta-se com ella. O marido e pae é de repente arrancado a impuxões de opprobrio dos braços de uma esposa querida. Quando{136} lhe elle agradecia as alegrias de seu amor, e a creança sorrindo parecia entender os jubilos do pae, Martha punha um pé sobre o coração do marido, outro, sobre o seio da filha, e repartia entre os dois a deshonra que lhe subejava. Do homem que por espaço de quatro annos lhe beijára os pés, fez um desgraçado sem nome; mas a sociedade precizando dar um nome a esse desamparado, chamou-lhe assassino. Elle matou-a, snr.ª D. Eugenia; foi a si proprio que elle se matou. Era forçoso espedaçar a alma que se identificára ao corpo contaminado da mulher perdida. As convulsões do veneno dilaceraram-lhe duas robustas vidas, a do coração e a do pundonor. O anjo que esse homem chamava filha cahiu dos braços da mãe, e elle repulsou-a dos seus, porque... não sei onde estão torturas comparaveis ás da incerteza entre um berço onde sorri um innocente e a sepultura onde os vermes completam a podridão de uma coisa infame como é a mulher que deixou seus filhos envergonhados se lhe proferirem o nome. Peço perdão, se estou magoando a sua sensibilidade, minha snr.ª V. Ex.ª está soffrendo, e eu disse{137} palavras acerbas como se as estivesse dizendo em frente dos juizes que condemnaram Jacome da Silveira. Chora! V. Ex.ª chora?! porque?

D. Eugenia

E porque não pediria essa criancinha a vida de sua mãe? Ella choraria o seu remorso ao pé do berço da filha... O desgraçado que praticou um tão duro castigo devia deixal-a viver, abandonal-a, para que a orfã não ficasse tão sem abrigo, á caridade de estranhos... Não se mata uma mãe que tem nos braços uma criancinha de tres annos.

Jorge (severo)

Essa mulher que morreu tinha o amante que primeiro lhe matou os brios; a criança podia ser filha do amante; e, se elle fosse menos infame do que cobarde, deveria retribuir a deshonra da mãe, repartindo com a orfã as pompas d'esta casa.{138}