«Dir-lhe-hei agora porque não caso: é porque não amo; nem casarei, porque não hei de amar nunca. Se me pergunta em que lamaçaes deixei ficar o coração, abaixo a cabeça, e peço licença para lhe dizer que ainda não prostitui o amor. Entrei nos lamaçaes, é isso verdade, saí sujo, como era forçoso sair, e mais nada. Quanto ao coração, sonhei uma vez que ouvira uma mulher dizer-me: guarda-m’o para m’o restituires no ceu. Foi isto um sonho; porem eu guardo o meu amor para os amores do ceu. O que é a felicidade senão sonho?!

«Meu presado primo, a minha mocidade acabou; foi tempestuosa, mas curta.

«Adeus. Peço á minha excellentissima prima a graça de receber os meus respeitos, e a vossa excellencia a sincera e profunda convicção de uma inalteravel amizade. Sou, etc.»

—Que te parece o espiritualismo do rapaz? perguntou Nicoláo á esposa que disfarçava o tremor das mãos.

—Que singularidade!... tartamudeou Beatriz.

—Estou em crêr que lhe extrairam o sangue máo que elle tinha, com os grãos de chumbo das costas! tornou Nicoláo sorrindo. Hei de mandar esta carta a teu pae.

—Para que?! interrompeu ella com ancia. Tu já sabes que meu pae lhe chamou impostor...

—Por isso mesmo: quero convencel-o.

—Vaes inquietal-o, primo... Que nos importa a nós o juizo que forma o pae? Raphael não solicita amizade d’elle... para que has de tu solicital-a!

—Tens razão, menina. Farto de disputações estou eu.