—Bem sei—disse soturnamente o marido.

—Pois, se sabes, porque me insultas?

—Eu conversei comtigo, Beatriz: os lacaios é que insultam. Meu terceiro avô não me consta que insultasse a minha terceira avó, que está alli no jazigo do lado esquerdo.

—Pois bem!... mata-me e mata-me já, que eu do fundo de minha alma te abomino, e perdôo. Esta creança te amaldiçoará em meu nome.

Era sublime o exaspero de Beatriz, com o filho nos braços, contorcendo-se em altos gritos. Nicoláo tirou-lhe a creança, apertou-a ao seio, beijou-a, lavou-a de lagrimas, e exclamou:

—Tu não me amaldiçoarás, meu filho!... Porque tu és meu filho, és, sinto-te entranhado em meu coração!...

D’ahi a horas, o morgado ordenava aos seus criados que preparassem as liteiras para jornada longa.

Dois dias depois, os fidalgos de Palmeira sairam caminho de Lisboa. E Raphael Garção recebia da mão de uma mulher entrajada de mendiga estas linhas:

«Vamos para Lisboa. Meu pae denunciou tudo. Sou uma martyr. Não me esqueças, anjo da minha vida. Eu perdoei-te, e amo-te mais que nunca. Maldito seja este homem, que me ameaça com a morte!... No ceu, no ceu nos veremos, meu R. Adeus. Sei que não torno a ver-te.»

Raphael Garção, á terceira leitura, disse entre si: