—E depois?... atalhou com arrebatamento Ricardo.

—Depois, esqueceu-a, e fez-se amantissimo da mulher. Foi uma desgraça para nós ambos a reconsideração.

—Porquê?

—Porque estavas livre da franceza tu, e eu amaria desassombradamente a prima Beatriz.

—Virá elle a Lisboa com intenções?

—Não sei, mas parece-me que ninguem vem conquistar, ou reconquistar uma mulher com outra ao lado. Esta conjectura é uma calamidade para ti: francamente, Ricardo! Quem te levasse hoje esta mulher, salvava as reliquias da casa dos Almeidas, e rehabilitava os teus creditos para entrares no molde de vida que melhor enquadra ao teu genio. A tua propensão é o casamento, primo Almeida; os homens pegadiços como tu são os eleitos da bem-aventurança matrimonial. Tu consomes com esta mulher porção de sentimento, que na vida honesta, e á sombra das suas arvores gigantes, te daria mananciaes de prazeres. Se eu tivesse a tua alma, bem sei onde a felicidade me esperava. Já estive recolhido seis mezes a trabalhar na refundição da minha indole, e fiquei mais aleijado. Se Deus me pedir contas a mim do que eu sou, hei de eu pedil-as á natureza, e veremos quem fica a dever. Mas tu, homem que podes amar dois annos a mulher de que desconfias, que amor não darias ao coração puro de uma esposa!

—Sinceramente te digo que já pensei n’isso.

—Ah? tu já pensaste n’isso? Então não amas a Margarida.

—Bem se vê que não podeste fazer exame de logica, primo Garção, retorquio sorrindo Ricardo.

—Meu amigo, conheces a regra geral de alveitaria que diz: cavallo que não vê é cego? Pois este axioma em força de verdade corresponde a est’outro: Homem, que, ligado a uma mulher pensa na felicidade que outra póde dar-lhe, não ama a mulher com quem vive. Pilhei-te em flagrante absurdo! Isto só o faz quem não póde fazer exame da arte de raciocinar. Parabens, primo! Dás-me esperanças de te vêr sair d’esta ingloria estagnação em que te apodrece a alma e o patrimonio. Sae d’isto, que é improprio da tua idade. Fecha os olhos. Deixa por descuido aberta a porta da gaiola, e o rouxinol que vá cantar a outros sinseiraes. Homem! olha que o dinheiro é uma cousa importante. Estás nos vinte e seis annos. Que farás aos trinta? Que heranças esperas? Nunca pensaste n’isto?