—Desprezo os meus amigos—replicou Ricardo. Vamos... porque...

—Porque vamos?—acudiu Margarida ás suspensivas reticencias.

—Porque desconfio da tua lealdade.

—Aqui?... Porque has de ter mais confiança lá?...

—Confessas, pois...

—Confesso que te sou pesada, e que me pesa de o ser. Eu surprehendi muitas vezes o teu espirito, e resignei-me. Esperei que elle fallasse: foi teu primo que te ensinou a eloquencia do tedio. Morri desde logo para ti, porque tudo esmaguei na minha queda, mesmo o meu orgulho, esta luz do ceu ou do inferno que nunca deixa escurecer a dignidade das peccadoras apedrejadas, que não encontram Jesus. Os teus amigos sabiam que impunemente podiam offerecer aos teus olhos um libello injurioso que tu deixaste mal guardado para que eu me podesse vêr n’aquelle espelho, e admirar a continuação da tua generosidade em baixar até ao esterquilinio onde me atiraram. Convenci-me de que sou a mulher descripta n’este papel em que a minha baixeza corre parelhas com a tua. É impraticavel a nossa convivencia. Reciprocamente nos desprezamos, Ricardo.

—Queres, portanto, dizer...

—Que nos desliguemos.

—Por que voltas aos amores antigos?

—Não te dou contas das minhas tenções: bem sabes que ha dois annos e meio as não dei a Nicoláo de Mesquita.