—O que me espanta é que vivesses dois annos commigo!...
—Por que te espanta?
—Precisamente ninguem te inquietou... disse elle afiando o sarcasmo com o riso.
—Espera!
Margarida abriu uma papeleira, e tirou de um falso alguns massetes de cartas, que desatou, e derramou sobre a jardineira.
—Lê as cartas recebidas em Lisboa pela mulher, que ninguem inquietava. Ahi reconhecerás a lettra dos teus principaes amigos. Ahi estão cartas dos signatarios da acta do duello, que se não fez porque Margarida é coisa apropriavel, sem titulo de propriedade valida. Vae agora perguntar a cada um dos teus amigos se possue carta da Margarida. São grandes fidalgos, e alguns—especialmente os que não te pediam dinheiro—são ricos e prodigos. Vae perguntar-lhes se a mulher, a materia que nunca se póde provar honrosamente discutida, baixou até elles, quando lhe rastejavam os pés, acceitando o desprezo, com a mesma abjecção com que traiam o amigo. Vae...
—Basta!—Exclamou Ricardo, engriphando os dedos nos punhados de cartas, que atirou ao pavimento.—Basta, Margarida, que eu estou expiando infernalmente crimes que não pratiquei! Segue-me, segue-me por piedade, e fujamos de Lisboa, senão fizeste de mim um assassino!
—Por minha causa não o serás, Ricardo. Attende-me bem: estas coisas são providenciaes. Eu sou escrava de um impulso sobrenatural. Não sei quem me leva nem onde vou. Ha oito dias que eu desprezava Nicoláo de Mesquita...
—E hoje?...—atalhou com ancias Ricardo.
—Hoje... nenhum de nós sabe que fatal magnetismo nos arremessa um contra o outro, como dois ebrios que se despedaçam a rir...