—Pois tu vaes para Nicoláo?!

—Não sei para onde vou.

—Sabes que elle é casado...

—Sei: que me importa a mim saber o que elle é? Casada era eu, e feliz, e rica e abençoada de todas as esposas e de todas as mães!...

—Que perdição a tua, que estrella, santo Deus! Exclamou em lagrimas Ricardo.

—Compadeces-te? Que faria... se visses a minha alma!...—soluçou Margarida.

—Oh! mas não vás que eu amo-te!

—Não mintas... Deus quer que d’aqui a uma hora me desprezes. Tu amaste-me sem saber por que: hoje odeias-me, sem poder justificar o teu odio. A carta de Nicoláo? Não pode ser! Que viste n’esta carta? Um homem que dizia: «A tua compaixão suavisou a minha dôr. Não me abomines, não peças a Deus o meu castigo, que eu já sinto na garganta a mão vingadora de teu marido!» O restante da carta que era? lagrimas, supplicas, reminiscencias do tempo em que me vira presada da sociedade, e pura como elle já não vê sua mulher. Podeste abominar-me tu, e tolerar que os teus ignobeis amigos me insultem por causa de similhante carta? Oh! se elles tiverem irmãs, ou esposas, alguma hora lhes passará no espirito a imagem de Margarida Froment, que não pode delir com lagrimas o appellido de seu esposo!

—Não vês que choro e que te amo, Margarida!—clamava de mãos postas Ricardo, inclinado aos joelhos d’ella.

—Dignidade, meu amigo! disse ella, erguendo-o.—Dou-te este nome com a sinceridade e honestidade de uma santa. Acceita-o que não pódes ser mais nada para mim.