E saiu da presença de Ricardo. Elle seguiu-a a brados dilacerantes, e ella acolheu-o nos braços, murmurando:
—Ouve-me, meu amigo. Eu pensei hontem em suicidar-me. Se hoje não visse o papel assignado por quatro miseraveis estaria morta a esta hora. Salvou-me aquella ignominia, Deus sabe para quantas mais atrozes. Nicoláo de Mesquita, n’este momento, sabe que eu vou pertencer-lhe...
—Infame!—exclamou Ricardo arrancando-se-lhe dos braços.—Que infame és tu, mulher sem pejo, que te vaes vender ao homem que te abandonou!
—Vender não, meu amigo—atalhou ella com a brandura de um sorriso sem nome nas expressões variadas da agonia.—Eu não me vendo: compro o direito de me espedaçar lentamente.
—Não te entendo, miseravel!—rebramiu Ricardo com os punhos cerrados, e os braços ameaçadores.
—Espero que me não insultes como um homem vil!—disse Margarida, retraindo a face aos punhos convulsos do allucinado.
Ricardo caiu na tormentosa consciencia da sua indignidade, e fugiu da vista da franceza, que soluçava como na ultima entrevista com Nicoláo, na estalagem de Villa Pouca.
No esplendido salão do seu palacete, Ricardo examinava um par de pistollas, e substituia por outros os fulminantes oxidados.
NOTAS DE RODAPÉ:
[3] Aos redactores da acta, modelo de continencia da linguagem no genero, agradecemos o latim, sem o qual a não poderiamos trasladar na integra.