«Ainda me sinto estremecer debaixo da electricidade dos teus olhos... Abro ao acaso as Meditações de Lamartine, e leio no Canto d’amor:

«Laissez-moi respirer sur ces lèvres vermeilles
«Ce souffle parfumé!... Qu’ai je fait?
«..........................................
«Parle-moi!... que ta voix me touche!
«Chaque parole sur ta bouche
«Est un écho mélodieux!...

«.......................................................»

Esta carta começa lyrica de mais para um feitor!

XVIII

Ricardo de Almeida, quando Raphael entrou, dormitava anciado, bracejando, e resmoneando sons desligados. Á cabeceira estava o escudeiro, homem de annos, marido da alma que aleitára o fidalgo, e servo dos Almeidas desde a infancia. O velho chorava e dizia a Raphael:

—Saberá vossa excellencia que é a primeira vez que vejo assim meu amo turvado do juizo. Mal hajam as desgraças que vem todas juntas!

—Isto não é desgraça, homem!—contestou Raphael Garção.—As bebedeiras são ás vezes os purgantes da alma. Tu nunca purgaste a alma, meu velho?

—Sempre cuidei, respondeu o mordomo, que as almas se purgavam no purgatorio; mas a de meu amo, ou eu me engano, ou cae direita no inferno. Estou a ver que lhe não chega a hora do arrependimento, como ao seu santo parente fr. Gil de Santarem. Vossa excellencia sabe a vida d’este parente do senhor morgado?