—Has de contar-me isso depois do café. Manda-me fazer café, que seja polvora, e alegra-te, que o fadario de teu amo está a quebrar-se.
—Deus o ouça, meu senhor!—disse o velho, e foi á cosinha filtrar alegremente o café.
Raphael estirou-se n’uma flacida ottomana, e sentiu-se na mais feliz hora da sua vida. O excedente da felicidade vulgar parecia-lhe sonho. Coordenava as reminiscencias de tres quartos de hora, e convencia-se da real existencia da sua fortuna após um arrojo que o coração não praticaria sem a escandecencia dos vinhos. Erguia-se de impeto, e mirava-se n’um espelho, como quem admira o dilecto da melhor fada, e o invejado dos mais bemfadados galans. A felicidade do coração corrompido põe o homem n’estes ridiculos arrôbos de si mesmo.
Chegou a bandeja do café. Raphael fez-se servir reclinado nos coxins, e disse:
—Se me dispensas, velho amigo, de ouvir a historia de S. Gil, meu maior e de teu amo, pede-lhe por nós nas tuas orações, e conta-me alguma coisa de Margarida.
Ricardo sentou-se espavorido, e rouquejou um brado que parecia um romperem-se-lhe as fibras da larynge:
—Margarida!?
—Que é lá?—acudiu Raphael.—Uma chavena de café, primo Ricardo!
O moço circumvagou os olhos esbugalhados, lembrou-se, reconheceu-se, no aperto da desesperançada angustia, e exclamou:
—Que perdição!... que horror me faz a vida!...