«No tocante a Raphael Garção ouso pedir á tua bondade que me não falles mais. Eu fallei muito a respeito d’este homem. Hoje a ti peço, aos mais ordeno que me não fallem n’elle.»
Martinho Xavier, velho amigo do governador civil de Lisboa, sabia, mediante as faceis pesquisas policiaes, onde morava Raphael em Lisboa. Concluiu muito mais além do que a alçada da policia devassou, e calou-se para não ir elle hastear o patibulo da deshonra da filha.
Nicoláo de Mesquita ponderou em nada as palavras do sogro.
Revieram dias serenos, serenos de sobejo para a lethargia de Raphael. Sensação nova para elle! até saudades dos paes o inquietavam! Parecia-lhe que na provincia havia de amar mais poeta, e mais intensamente sua prima.
Este constrangimento adoentou-o sem artificio. Beatriz deu tento de sua tristeza, e considerou-se desamada. Chorou e fez-se aborrecida. A mulher, nas condições de Beatriz, nada vence com lagrimas, e ás vezes dissolve com ellas os filamentos que a prendem á estima que se desfaz. Raphael queixou-se amargamente da injustiça e da ingratidão.
—Avalias mal, disse elle, um homem dos meus annos, e com o meu temperamento, que está, ha sete mezes, privado da liberdade, e até de ar, no centro de Lisboa, rodeado de prazeres, attraido pelas diversões de que amante nenhum se abstém.
—Eu cuidei que eras assim feliz!... atalhou ella seccando as lagrimas ao incendio do subito arrependimento.
—Feliz... de certo fui e sou; mas custa-me que tu chores, quando eu me queixo que não posso com esta vida... Tens tu força de mover teu marido a ir para a provincia?
—Eu não tenho força nenhuma, primo...
—Experimenta, Beatriz: diz-lhe que estás doente: póde ser que elle te deixe ir para Palmeira. Se elle quizer ficar com a franceza, que te faz isso?