—A mim que me ha de fazer?!... Pois sim, eu lhe pedirei que me deixe ir para Palmeira... E perdoa-me, disse ella, enternecedora, perdoa-me, Raphael, que bem conheço que estás doente, e aborrecido como eu de Lisboa. Quem me dera nas minhas arvores, e á margem do meu Tamega!... Amei-te com tanto coração n’aquelles sitios!... Tenho saudades da gruta em que eu ia buscar as tuas cartas e levar as minhas! Conheço todas as plantas d’onde tu colheste uma flôr, que deixavas cair entre as murtas para eu a murchar ao calor do meu seio. Tambem te lembras?
—De tudo, minha filha!...—disse Raphael commovido.—De tudo me lembro em que teus olhos pousaram um instante. Voltaremos nós áquelle ceu?... Vêr-nos-ha uma d’aquellas noites estrelladas da nossa terra?
Estavam mais liricos que o seu costume. O morgado de Fayões era alma pouco puxada á fieira do idillio. As estrellas distraiam-n’o mediocremente, e a lua incommodava-o com demasias de luz, nas suas escaramuças nocturnas á pacifica honestidade dos infelizes, como o pharmaceutico, e o coronel, e outros de lacrimavel memoria. No tocante a Beatriz, até áquella hora, minguára-lhe tempo aos devaneios pelo azul dos céus da sua terra e canteiros do seu jardim. Nos romances, que lêra, se alguns amantes se detinham em palestras concernentes ás estrellas, e sombras de platanos, admirava-se ella da impertinencia dos authores, que tão pouco, em certas conjuncções, conheciam o coração de duas pessoas apaixonadas, ardentes, novas, doidas, escondidas uma n’outra como dois anjos, que não entendem o mundo.
Desde este dia, ou noite, Beatriz ficou pensando sempre em voltar á aldeia. Tambem ella esperava que o seu Raphael centuplicasse os carinhos, além, n’aquelles convidativos bosques, onde parece que o coração se dilata, e enche do amor dos mil amores que a natureza espira.
Pediu ao marido que a levasse a Palmeira, se elle queria passar o verão em Lisboa.
Nicoláo respondeu que não podia ir, nem viver sem ella.
—E se te eu disser que me sinto deperecer, e brevemente morrerei em Lisboa?—replicou ella.
—Não morrerás, menina. Pelo contrario, a vida da aldeia ser-te-ia hoje um incessante fastio.
—Como quizeres, primo...—tornou Beatriz com despeito.—Ainda assim, has de consentir que eu, se me sentir peior, escreva a meu pae, pedindo-lhe que me venha buscar. Tenho um filho, e quero viver para meu filho.
—Pois vive em Lisboa, priminha, que estes ares são purissimos, se me não engano.