—Então que é isto?—perguntava Nicoláo á sua razão esclarecida.—O homem disse-me em Cintra que ia para casa, e ninguem sabe d’elle!... Não negou que ia casar com Angela, e Angela estava casada!... Mas, se elle estivesse em Lisboa, e Beatriz o soubesse, seria um contra-senso querer ella ir para a provincia! Isto não falha aos dictames de uma razão escorreita! Já sei o que é: o doido escondeu-se por aqui, ou no Porto, ou na provincia com a franceza. É o que é. Martinho Xavier sabe-o, e, irado contra esse escandalo, prohibe que lhe fallem n’elle. Minha mulher é estranha a tudo isto. Vejo-a doente, e receio que ella se queixe ao pae. Sabe a minha vida misteriosa, e, se eu a contrario, é capaz de me denunciar. Martinho Xavier vem a Lisboa, e toma conta da filha. Remediemos as eventualidades. Vou para Palmeira com minha mulher, e preparo residencia á franceza na minha quinta de Ribeira d’Oura. No inverno seguinte, deixo Beatriz em Chaves com o pae, e volto a Lisboa com Margarida.

Beatriz recebeu a nova da partida. Avisou Raphael, que antecedeu oito dias a jornada, entrando outra vez em Hespanha. A mobilia da casa de Andaluz foi vendida em globo, em nome do seu criado. O desabafado moço cuidou que saia de Lisboa com um pulmão desfeito, e o outro atacado de tuberculos.

Entrou Raphael Garção em Chaves, com dois caixotes de encommendas de Pariz, mandadas comprar no Chiado. Andou entregando os objectos ás primas, com as quaes fallava difficilmente o portuguez. As senhoras achavam-n’o assim mais interessante. As donzellas gostavam de ser chamadas mamasélles e chères cousines, pronuncia que feria os ouvidos lusitanissimos das velhas. De Chaves foi para Fayões, onde se espantou de não encontrar cincoenta e tantas cartas, que havia escripto a seus paes, de differentes cidades do mundo. Os velhos choravam abraçados n’elle, como se o filho, por milagre de Jesus, quebrasse a campa. Julgavam-n’o como morto, não obstante Ricardo de Almeida, compadecido d’elles, lhes haver asseverado, de mez a mez, que Raphael Garção vivia. O morgado queixou-se acremente da inconstancia da prima de Santo Aleixo, e protestou casar-se por vindicta com a mais rica herdeira.

Passados dias, foi visitar Ricardo ao castello de Aguiar. Viu Laura, a pomba do ceu, que depuzera o ramo de oliveira no coração do amante de Margarida. Inclinou-se com ingenuo respeito deante da mulher, que o recebia com um surriso de estima. Sabia ella quanto seu esposo devia a Raphael Garção, perdido no conceito publico, e ao mesmo tempo bajulado dos paes, querido das mulheres, e invejado dos homens. Ricardo pintára-lhe vantajosamente o caracter de Raphael, omittindo o desdouro dos seus amores adulteros. Laura uma vez lhe revelára a esperança de vêr uma das suas irmãs casadas com o morgado de Fayões. Ricardo singelamente lhe disse:

—Não penses em tal. Raphael ha de morrer solteiro, porque ha de morrer novo.

Regosijou-se a dama brazileira de vêr Raphael com saudavel exterior, e uns vislumbres de espirito fatigado de correr mundo á procura das aventuras vãs e estragadoras do coração. Julgava ella que as leviandades do fidalgo eram amar sem destino, gastar o sentimento em affectos inconsequentes, e com mulheres devastadas pelas paixões, falsas paixões que desluzem as illusões candidas da alma, como as côres postiças corroem a natural purpura do rosto.

Largas horas praticaram os dois amigos em passeios na serra, por onde Raphael tragava saude, e renovava o sangue. Fallava de Beatriz com saudade, por que a distancia lh’a aureolava com o resplendor de outros tempos. Revelava os seus intentos a Ricardo, que, sem fortalecer o discurso com axiomas, lhe pedia que rompesse uma alliança, promettedora de cortar-se mais tarde com mais doloroso golpe.

—E cuidas tu que Beatriz não morre, deixando-a agora eu?—dizia entre piedoso e fatuo o de Fayões.

—Cuido que não morreria, primo Raphael. Merecia a pena experimentares quinze dias.

—Fez-te barbaro a felicidade, Ricardo!... Assim, queres tu que eu faça uma fria e selvagem experiencia na vida da mulher que me ama, e que tem posto a risco a honra e a vida por amor de mim?