Informou-se o morgado do viver de Raphael. Colheu que vivia muito no Pontido com Ricardo, e com os amores começados de uma cunhada de Ricardo, dotada com duzentos e cincoenta mil cruzados. Varreram-se-lhe as suspeitas do pensamento. Foi á Ribeira d’Oura; deteve-se oito dias, e voltou forçado pelas conveniencias, e já não pelo ciume.
N’este espaço de tempo, Raphael Garção passou trez dias no palacete de Palmeira, e revistou com Beatriz, nas cálidas horas das noites de julho, os maciços das murtas, os alegretes das flores almejadas em Lisboa, os arvoredos cerrados, as margens do Tamega rumoroso. Noites lindas, scismadoras como as do tempo ido, mas que differentes ao espirito de Raphael! Poesia espontanea, essa fenecêra como as flores de então. A poesia de agora, tirada á força da fantasia, era toda arte de coração fatigado. Beatriz é que era sinceramente ditosa.
Raphael estava alli e pensava em Amelia, irmã de Laura, trigueira como sua irmã, olhos mais ardentes, espiritos mais scintillantes, cheia de graça na conversação, e de meigas puerilidades no seu amor.
Acontecia, porém, que o pae de Amelia desconfiava do caracter de Raphael. Repugnava-lhe o tom galhofeiro do primo de Ricardo de Almeida. Achava-o mundano de mais; bom para as salas; verde de mais para a vida intima. Não obstante, ligeiramente contradizia a propensão da filha.
Raphael não podia romper de vez o enlace com Beatriz; promettia, porém, ser forte e honrado, assim que o casamento se tratasse.
Aqui o temos, pois, transtornado, e seduzido pelo exemplo da felicidade do primo. As differenças de genio, que mezes antes observára elle, entre si e Ricardo, tornaram em identidade de aspirações. Dizia-lhe o castellão de Aguiar que principiasse a sua reforma, renunciando ás abominaveis intelligencias com a esposa de Nicoláo de Mesquita. Raphael mentiu, protestou despedir-se d’ella cavalheiramente, recolheu-se a Fayões; e assim que houve nova da segunda ida de Nicoláo á quinta da Ribeira d’Oura, voltou para Vidago.
Martinho Xavier sabia os passos do genro, e os do sobrinho. Ao genro perdoára; ao sobrinho não pudera. Um dia, chamou dois valentes filhos de um caseiro das suas terras de Barrozo. Deu a cada um seu bacamarte; e, ao cerrar da noite, ordenou-lhes que o esperassem fóra de Chaves, com um cavallo á redea. No sellim iam afivelados coldres de pistolas de alcance.
Á meia noite, haviam caminhado quatro leguas. A casa acastellada de Fayões negrejava como um morro de fragas, a um oitavo de legua distante.
Martinho parou e disse:
—Á uma hora devem aqui passar dois homens a cavallo. Se o que vier á rectaguarda fizer algum movimento com armas, atirem a matar. Ao que vier na frente não lhe ponham mão. Se acontecer matar o criado, fujam, e esperem-me além Tamega. Eu lá irei ter.