«MARGARIDA ESPOSA DE E. FROMENT».

Nicoláo, corridos trez minutos de estupefacção, exclamou:

—Pois ha Deus que castigue assim!?

XXIV

A interrogação do morgado não fez mais abalo no tribunal da Providencia que os insultos de Julião e as provocações de Luthero ao Homem-Deus.

Confessou-se castigado, conheceu que expiava: a Providencia que mais queria do verme? Deixou-o a revolver-se nos espinhos, e voltou a face do guzano, que se pascia em sua podridão.

Desde aquella hora, Nicoláo, olhando-se no baço espelho da sua consciencia, viu-se hediondo; e aos vidros, em que poucos dias antes se gosava e narcisava nos seus frescos e garbosos quarenta e quatro annos, via-se agora encanecendo, da noite ao dia, com rapidez de condemnado nas ultimas setenta horas do oratorio.

«Eu posso ainda levantar-me d’este abatimento!—dizia comsigo elle.—Irei longe d’aqui, irei a França, a Italia, a toda a parte onde a riqueza inventa delicias, irei gosar, esquecer-me, viver!»

Este desafogo acalentava-lhe o exaspero breves instantes. Lá no recesso da sua alma havia uma elaboração de veneno, que se lhe coava na chaga, assim que o linimento da esperança começava a cicatrizal-a.