Margarida pensou em fugir-lhe, receiosa de algum accesso de furia sanguinaria.
Induziu-o a sair da quinta da Ribeira d’Oura para Lisboa. Nicoláo recebeu jovialmente o alvitre; mas d’ahi a nada, rompia em exclamações contra a mulher, que lhe aconselhava dar maior publicidade á sua deshonra.
—Está mentecapto!—dizia entre si a franceza.—O diabo que o ature!...
Nicoláo de Mesquita foi ao solar de Palmeira, passados dois mezes, abrir as janellas e arejar o palacete que nunca mais se abrira. Meditava em transferir para alli a franceza, desejo que ella manifestára por lhe haverem dito que a casa e bosques e jardins de Vidago eram magnificos.
Deteve-se a revolver as commodas e bahus de Beatriz, onde não encontrou papel suspeito. O mordomo fez-lhe saber que as caixas da ama ainda estavam fechadas no quarto, porque ninguem dava noticia da paragem que ella tinha.
Nicoláo fez arrombar as caixas, e encontrou alguns massetes de cartas, e uma medalha de oiro com o retrato de Raphael Garção, e uma manilha com cabello identica áquella com que o amante de Beatriz morrêra.
O morgado leu as cartas, sem excepção d’aquella em que Raphael alludia galhofeiramente ao episodio burlesco da casa das primas Camaras em Bemfica.
Nicoláo sentiu o feroz impulso de ir insultar o cadaver de Beatriz ao jazigo, como a inquisição fazia aos monarchas. Tinha exemplo de boas fontes. Desistiu da lamentavel inepcia, e fugiu como de si mesmo para a Ribeira d’Oura. Quando chegou, não encontrou Margarida Froment.
Sobre um piano viu um papel fechado, com estas breves linhas:
«Já não podemos ser senão muito desgraçados um em presença do outro. A mulher fatal não quer fazer mais victimas. Adeus.