Era uma figuração meramente este reparo no escarneo de Margarida. A franceza ageitou as feições á magua do seu amigo: interiormente é que ella se deleitava atrozmente, vendo-se no juizo do mundo e de Nicoláo tão deshonrada como a mulher purissima, por amor de quem fôra abandonada á generosidade do primeiro homem que quiz acoital-a da vergonha de pedir ella um amante em troca de um jantar e de um vestido.
Os exteriores da franceza eram, pois, uma chimera do morgado de Palmeira. O que lhe dava estas visões era a interna dilaceração, que todo o repouso e esperança lhe convertia em raiva e desalento. A publicidade da sua ignominia, aggravada com a hypothese de ter sido elle o assassino, afóra o perdimento do filho, ao qual a Providencia lhe suscitára no coração um amor incendiario, estas angustias, centuplicadas pela dolorosa travação de todas, fizeram da vida d’este homem um espectaculo aborrecido ás raras pessoas que o tratavam, e, mais que a todas, a Margarida Froment.
Assim que ella proferia uma palavra de banal consolação, Nicoláo enfuriava-se, e dizia que o seu vilipendio não transigia com os factos consummados, com a deshonra de muitos homens.
Margarida, injuriada assim na pessoa de seu marido, abria uma das valvulas do seu fel—o fel que o desprezo da sociedade emborca violentamente na consciencia das mulheres despreziveis—e rebatia-lhe as injurias com aviltamentos.
A repetição d’estes conflictos disparou na ameaça de rompimento por parte de Margarida. O atormentado homem, irado pela ameaça, bramiu:
—Pois vae-te, mulher fatal! vae! que a tua expiação ainda não começou! Uma adultera lá está na sepultura! Eu estou aqui n’esta agonia, que tu vês!... Tu, maldita, ousas ainda espremer a peçonha nas minhas chagas, quando devias laval-as com lagrimas! Tu, por amor de quem eu deixei que Beatriz fosse victima da seducção! Tu, que interiormente exultas com o meu opprobrio, e com a queda de uma perdida na tua voragem!... Pois vae-te, vae, maldita, e deixa-me morrer!
Margarida preparava os seus bahus, para ausentar-se; e Nicoláo lançava-se-lhe de joelhos aos pés, exclamando:
—Não me deixes n’esta solidão! bem vês que todos fogem de mim! Não tenho ninguem! ninguem! até o filho me roubaram!...
A franceza condoia-se; estendia-lhe compadecidas mãos; acolhia-o nos braços com ficticia ternura, e desprezava-o tanto quanto elle mais se envilecia.
As maviosidades momentaneas de Nicoláo pareciam ridiculas caricias de velho idiota: os exasperos, interpollados com as caricias, afeiavam-n’o horrivelmente.