Nicoláo de Mesquita perguntou pelo filho. Responderam-lhe que o avô o levava ao collo, á saida da capella.
Saltou furioso d’entre os cavalheiros que o rodeavam, e quiz ir na pista do sogro. Retiveram-n’o, lembrando-lhe que ainda estava quente o cadaver de Beatriz.
No outro dia, por noite, chegaram á vista de Palmeira os criados de Raphael Garção com o cavallo, na fórma das ordens de seu amo. Esperaram-n’o a noite inteira. De manhã, repentinamente, viram-se cercados de regedor e cabos que os interrogavam sobre o que faziam parados n’aquelle sitio. Como gaguejassem, foram presos; e, timoratos entre ferros, declararam a que fins tinham vindo.
Nicoláo de Mesquita ordenou que os trouxessem á sua presença. Atterrados pelo apparato, contaram tudo. O morgado suppoz, um momento, que Raphael Garção fôra o motor da morte de sua mulher ou com suas proprias mãos a estrangulára, e fugira para Hespanha. O boato correu assim, e a opinião publica deu-lhe peso. Os paes de Raphael, surpreendidos por esta nova, sairam caminho de Palmeira. Ricardo de Almeida appareceu ao mesmo tempo nos arredores de Palmeira, e defendeu o seu amigo com a eloquencia da verdade e da angustia, na presença de numeroso publico, exclamando:
—O assassino de um, ou de ambos foi Nicoláo de Mesquita!
Enganavam-se todos.
Os paes de Raphael Garção escutavam as differentes vozes com um spasmo e silencio, que fazia chorar. Não sabiam dizer ao que tinham vindo; procuravam o seu filho! Voltaram para casa. A mãe esperou dois mezes. Apagada a esperança de tornar a vel-o, foi procural-o n’outros mundos. O velho, menos feliz que a esposa, ficou-se espantado a olhar contra o jazigo em que lh’a fecharam, e d’alli saiu idiota para a escuridade de uma camara, onde agonisou dez annos.
Ricardo de Almeida, convicto de que seu primo Raphael tinha sido assassinado por ordem de Nicoláo, não podia soffrer que a voz publica infamasse a memoria do desgraçado, poupando o assassino. Como já não podia com o silencio desinfamar a honra de Beatriz, foi a Chaves, e contou a Martinho Xavier os pormenores dos amores de Raphael com sua prima, e as intenções com que elle saira de casa d’elle para Palmeira. O velho achou rasoavel a supposição do morgado do Pontido; mas a sua angustia já não tinha respiradouro. A indignidade da filha culpada e morta enleava-lhe os braços para a vingança. Com que direito iria elle vasar uma bala no peito do homem, que barbaramente se desultrajára!... Pediu elle a Ricardo de Almeida que se calasse para que o tempo levasse a lembrança da horrivel tragedia na sua onda de sangue.
Cançaram-se os pregoeiros da desgraça. Ao fim de um mez os processos começados estagnaram-se, á mingua de indicios. Martinho Xavier, instado para restituir o neto, desappareceu com elle, e com boa parte dos seus cabedaes. O menino tinha quatro annos, n’aquella época. Seu avô dizia que o queria roubar ás reminiscencias do opprobrio e da morte de sua mãe. Refugiára-se com o seu thesouro em Londres.
Nicoláo de Mesquita foi para a Ribeira d’Oura buscar as consolações de Margarida Froment. Enganara-se. O aspecto moral d’esta mulher figurou-se-lhe um demonio, que o escarnecia na sua ignominia, a ignominia de ser deshonrado, como suppunha dos boatos propalados pelo Almeida, no intuito de o condemnar a elle como homicida de Raphael e Beatriz.