—E por que não hade vossa excellencia entretêr as suas horas n’uma obra tão util para a casa e para o povo?
—Que me importa o povo e a casa? replicou o fidalgo.
—O povo creio eu que importa a vossa excellencia, meu bom fidalgo, porque paes e avós d’este povo foram sempre como filhos dos ricos homens da Palmeira do Vidago. O povo lucraria muito se vossa excellencia lhe desse para as suas necessidades a agua que superabunda nos hortos e quinta. Esta pobre gente, quando os calores seccam as fontes, vae buscar, a grande custo e perda de tempo, a agua á freguezia proxima. Aqui tem vossa excellencia que está em sua mão, com pequenissimo dispendio, soccorrer este povo, que tão alegre ficou, assim que eu lhes disse a intenção abençoada de vossa excellencia. Parece que tem praga de inveja aquella obra! Seu excellentissimo avô abriu a mina, o paesinho de vossa excellencia continuou-a, o senhor morgado fez lavrar quinze braças; e, quando esta mina ia por pouco encontrar-se com o aqueducto, que desce da serra, vejo eu os jornaleiros a tapal-a de cantaria grossa!
Nicoláo ergueu-se com semblante enfastiado, e o reitor calou-se, como sempre, assim que a expressão do tedio assomava no rosto do morgado como preparação para um grosseiro: «Queira deixar-me sósinho, padre reitor.»
D’este dialogo fica inteirado o leitor de que a mina ficou sendo a sepultura de Raphael Garção, e que o apodrecimento do cadaver não chegou a ser presentido pelo fetido das exhalações.
XXV
O virtuoso reitor de Vidago, presenciando as lagrimas com que Nicoláo fallava de seu filho, e da impossibilidade de descobrir a paragem d’elle, foi a Chaves, e insuspeitamente averiguou de pessoas intimas de Martinho Xavier, e inimigas do viuvo de Beatriz, que o menino estava em Londres com seu avô, esperando o tempo proprio de entrar em collegio. Este descobrimento arrancou o pae ao seu marasmo. Aquella unica estrella, a espaços, lhe preluzia no futuro, na velhice que elle esperava receber da vontade divina como castigo. Animado pelo sacerdote, Nicoláo foi a Londres, onde esperou inutilmente seis mezes o apparecimento do filho ou do sogro. O imprevisto encontro de um amigo de Lisboa, ligado á diplomacia portugueza, esperançou-o em descobrir a residencia de Martinho Xavier, se elle existia em Londres. De feito, e facilmente se deparou ás investigações policiaes o velho fidalgo vivendo nos arrabaldes, com modesta decencia, e quasi incommunicavel. Nicoláo, commovido de jubilo, que lhe amaciava as asperezas da indole, apresentou-se de subito ao pae de Beatriz, no momento em que o velho passeiava o menino sobre o chão arrelvado do jardim, ensinando-lhe o nome das flôres e arbustos. Foi uma visita, que Martinho Xavier não prevenira, deixando abertas as portas gradeadas do jardim. Se Nicoláo batesse á porta, não lh’a teriam aberto, sem previas consultações e licença do velho cioso Pygmalião d’aquelle thesouro.
Nicoláo correu arrebatado ao filho. A creança apavorada d’aquelle homem de longas barbas brancas, aconchegou-se do seio do avô, que se acurvara a defendel-o, sem ter ainda reconhecido o genro. O morgado, com os olhos marejados de lagrimas, parou a curta distancia do grupo, e disse affectuosa e tristemente:
—Pois tambem tu me foges e desprezas, filho da minha alma?