O pae de Beatriz fez espanto da desfiguração do genro. O menino reconheceu-o pela voz, e oscillava entre o avô e o pae, dizendo com voz tremida e balbuciante falla:

—O meu papá não morreu? O avô disse que sim.

—Morri, meu filho, morri!—respondeu soluçante o desgraçado.

Martinho Xavier encheu-se de compaixão d’aquelle homem, ferido pela mão divina. Baixou olhos á creança, e disse-lhe:

—Abraça-o, Martinho, que é teu pae.

—E a mamã—perguntou o menino, apertado nos braços do pae.—E a mamã tambem não morreu? Onde está ella?

O rubor da alegria e do alvoroço coou-se instantaneamente no rosto do pae, e um como pedaço de mortalha, amarellecida pelo tempo entre as taboas sepultadas do caixão, lhe cobriu a parte do rosto que as barbas descobriam.

Martinho Xavier comprehendeu a amargura d’aquelle silencio, e houve pejo de não poder levantar a voz em defeza da filha.

Nicoláo, com o menino nos braços, avisinhou-se do sogro, e disse-lhe compungente, e com os olhos quebrados de supplicante amargura:

—Não sei porque me has de odiar, primo Martinho! As minhas desventuras, se fossem sabidas, commoveriam toda a gente, e as minhas culpas seriam perdoadas. Que julgas tu de mim?