«Dava-te metade do meu pão: hoje dou-te metade da minha fortuna, e a outra, se a quizeres.»

Ernesto acceitou a sua quota parte, e desistiu da outra, muito em conformidade com a lei, dispensando-se até de administrar a massa do casal, o que em boa jurisprudencia lhe era permittido.

Margarida, se fosse solteira, podia escolher bons casamentos. Dizia-se em Leão que ella era os melhores quarenta annos e as mais bellas ruinas que ainda tinham visto os olhos dos seus pretensores, offuscados pela prefulgencia de duzentos mil francos.

Ernesto foi para Londres. Metteu nos bancos o seu capital, e deu-se a uma vida de confortos modestos, e reparação da saude. Tonisado pela regularidade e sadia alimentação ingleza, achou que a inercia lhe pesava. Como tivera fabrica de estôfos, entrou em negocio de algodões, não para anumerar aos seus cabedaes, mas para entreter-se.

A familia ingleza, relacionada com Nicoláo de Mesquita, possuia fabrica em Manchester, e comprava algodões aos importadores. Ernesto Froment negociava com os Smitts, necessariamente haviam de ser Smitts, ou Johns.

Uma vez estava Ernesto no escriptorio dos Smitts, ou Johns, e entrou um homem de barbas intonsas e alvissimas, com um menino pela mão.

O fabricante inglez chamou-lhe: «Master Nicoláo de Mesquita.»

Ernesto, como se lhe dessem com uma bala na face esquerda, voltou a cabeça á direita, e perguntou em inglez:

—É de Portugal este a knight (cavalheiro)?

—Sim, das visinhanças do eden do vinho—respondeu o industrial.